Doença crónica que afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, a endometriose consiste na presença de tecido endometrial fora do útero. Habitualmente causa dor, sobretudo com as menstruações e relações sexuais, e pode levar a infertilidade, mas um diagnóstico e tratamento precoces contribuem para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida.
Artigo originalmente publicado na revista Prevenir, em abril de 2022
Estima-se que cerca de 350 mil mulheres em Portugal sofram de endometriose, uma patologia caracterizada pelo crescimento de fragmentos de tecido endometrial fora da cavidade uterina (onde normalmente se encontra), com inflamação associada.
Não se sabe exatamente qual é a causa desta doença, mas é provável que vários fatores contribuam, como imunidade alterada, proliferação celular e genética, observa o ginecologista-obstetra João Alves. Causando habitualmente dor, sobretudo aquando das menstruações e relações sexuais, pode levar a infertilidade. Nos casais com dificuldades reprodutivas, “até cerca de 50% das mulheres terão endometriose”, nota o especialista do Hospital da Luz, esclarecendo que não se trata de um quadro irreversível. “Hoje em dia os tratamentos de fertilidade são muito avançados, permitindo à maior parte das mulheres engravidar. Cada caso é um caso.”
Sinais de alarme e sintomas
A dor pélvica é um dos sinais de alarme da patologia. “Os principais sintomas são dor intensa durante a menstruação” – inclusive ao evacuar e urinar – e “dor com a relação sexual profunda”, para além de “dificuldade em engravidar, especialmente se há mais de um ano”, afirma o médico. “Também o inchaço abdominal intenso aquando da menstruação e o cansaço exagerado podem ter como causa a endometriose.”
De facto, como corrobora a fisioterapeuta Mariana Pereira, especialista em saúde da Mulher, esta doença é “muitas vezes manifestada como uma dor pélvica crónica que, pelo seu tempo prolongado de manifestação (quer por atraso no seu diagnóstico, quer pela progressão própria), se faz acompanhar de alterações na perceção dessa mesma dor, medo, estados de hipervigilância, alterações de humor, depressão”, podendo também “levar ao desenvolvimento de diferentes tipos de disfunção sexual”.
Tratamentos
Existem várias terapêuticas disponíveis para a endometriose. “Na maior parte das mulheres”, esclarece o especialista João Alves, “o tratamento passa por tomar uma pílula contínua, que permite não apenas ter menos menstruações e dessa forma menos períodos de dor intensa, mas também um menor risco de progressão da doença”. Há ainda a alternativa de “dispositivos intrauterinos com progestativos, que permitem a grande parte das mulheres ficar sem menstruar – ter amenorreia – controlando dessa forma a patologia”.
Além da abordagem farmacológica, “existe também a cirurgia laparoscópica, que permite remover a doença com excisão da mesma, mediante pequenas incisões de 5 mm, abaixo da linha do bikini”. Individualizada para cada doente, é indicada quando há «dor refratária ao tratamento médico», esclarece o ginecologista-obstetra do Hospital da Luz.
O papel da fisioterapia pélvica
“A fisioterapia nas disfunções do pavimento pélvico pode ser um elemento-chave na redução da dor, em conjunto com outras abordagens médicas, nutrição, psicologia ou outras terapias complementares”, afirma Mariana Pereira. É um tratamento que engloba técnicas e estratégias para a gestão da dor, que permitem à mulher ter uma melhor consciencialização e controlo sobre o seu corpo.
Na fisioterapia procura-se tratar todos os aspetos que podem contribuir para a persistência de dor, como as questões relacionadas com o funcionamento da bexiga, intestinos e eventuais disfunções músculo-esqueléticas, que “muitas vezes contribuem para a perpetuação da sensação de doença”.
Melhorar o estilo de vida
Salientando os benefícios da fisioterapia pélvica e de outras abordagens terapêuticas, como apoio psicológico e acunpuntura, o médico João Alves reconhece que, “infelizmente, ainda existe um longo trabalho de divulgação e formação médica na área, que deveria levar à criação de centros públicos de referenciação” para a endometriose.
Ainda assim, “mudanças no estilo de vida podem ajudar muitas mulheres, de forma complementar ou mesmo principal, a melhorar o prognóstico da patologia e a qualidade de vida a longo prazo”. Por isso o ginecologista-obstetra recomenda a prática de uma alimentação tendencialmente anti-inflamatória e de exercício físico regular. Um conselho que, de resto, é válido não somente para as mulheres portadoras de endometriose, mas para todos.
Técnicas para diminuir a tensão e espasmo muscular
“É importante deixar as mulheres munidas de estratégias que lhes permitam de forma autónoma ter controlo sobre a dor e disfunção do pavimento pélvico”, considera Mariana Pereira. Assim, na fisioterapia, são ensinadas técnicas para diminuir a tensão e espasmo muscular decorrentes dos eventos de dor, como técnicas de libertação miofascial (da estrutura que envolve os músculos), exercícios de relaxamento e ativação muscular, alterações comportamentais, correções posturais e técnicas respiratórias.
Exercício de respiração diafragmática para relaxamento do pavimento pélvico:
- colocar uma mão no peito e outra no abdómen,
- respirar em direção à barriga de forma calma e tranquila
Exercícios de alongamento para relaxamento do pavimento pélvico:
“bebé feliz”:
- deitar de costas
- puxar os joelhos ao peito e afastar
- manter a posição ou balançar de um lado para o outro
- associar a respiração diafragmática
“pose de bebé”:
- ajoelhar com os pés juntos e completamente apoiados
- afastar bem os joelhos
- inclinar completamente o tronco à frente
- braços esticados e apoiados no chão
- sentar bem atrás nos pés
- manter a posição ou deslizar braços e tronco para os lados
- manter a respiração diafragmática
Alterações comportamentais:
- ingestão hídrica adequada (1,5-2 litros)
- não fazer força para urinar
- não ficar longos períodos de tempo sem urinar
- utilizar um banco debaixo dos pés para evacuar
- fazer caminhadas todos os dias.
Deverá sempre fazer previamente uma avaliação com fisioterapeuta especialista em disfunções do pavimento pélvico.
Como enfrentar problemas sexuais
“A endometriose está muito associada à dor nas relações sexuais (dispareunia) e, por isso, tem um enorme impacto na sexualidade da mulher, não só na dor penetrativa superficial ou profunda, como também no desejo sexual, excitação e na satisfação sexual, muitas vezes com dificuldade em atingir o orgasmo”, refere a fisioterapeuta Mariana Pereira. “Este impacto também se manifesta em aspetos relacionados com a autoestima e com a autoimagem.” De modo a melhor enfrentar potenciais consequências da endometriose a nível sexual, a especialista deixa alguns conselhos:
1. É importante comunicar. Ter relações sexuais porque “faz parte”, “tem de ser”, “se não um dia deixa-me”, não deve ser o caminho e só vai exacerbar um ciclo vicioso de dor. “É importante que a mulher sinta que não está sozinha. Deve procurar comunicar, só assim será possível estabelecer uma parceria de sucesso no processo de recuperação.”
2. Sempre que possível envolver o parceiro no tratamento. “Regra geral, o parceiro ou parceira quer ajudar e não sabe como»”, nota Mariana Pereira, acrescentando que, muitas vezes, nas sessões de fisioterapia recebe o casal “para ensino de estratégias e exercícios que ajudam a mitigar a dor”, o que de alguma forma aproxima o par, contrariando algum distanciamento que possa surgir na intimidade.
3. Privilegiar uma abordagem multidisciplinar. Incluir a ajuda de um psicólogo e/ou sexólogo pode fazer sentido. “Na verdade, a intimidade é muito mais do que relações sexuais penetrativas e é preciso desconstruir isto e ensinar outras formas de se relacionarem.”
Diagnóstico
O toque ginecológico é por vezes suficiente para quase confirmar um quadro de endometriose. A ecografia ginecológica e a ressonância magnética pélvica são exames complementares que documentam a doença e a sua extensão.
A Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose tem feito um trabalho de divulgação da doença, assim como de medidas para um diagnóstico e tratamento precoces, online e junto de escolas.
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