Medicamentos e nutrição: cuidados a ter

É sabido que se deve abster de álcool quando se toma antibióticos ou antidepressivos, mas interações farmacológicas podem acontecer com outras drogas e fármacos, alguns alimentos e até plantas medicinais.

Por Ana João

Colaboração de Fernando Ramos, diretor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC), coautor dos livros Medicamentos, Alimentos e Plantas: As Interações Esquecidas? e Manual de Interacções Alimentos Medicamentos

“Uma interação alimento-medicamento (IAM) consiste na modificação dos efeitos farmacológicos de determinado medicamento, por ingestão prévia ou concomitante de alimentos”, começa por definir o farmacêutico e investigador Fernando Ramos. “Um exemplo que as pessoas certamente já sentiram diz respeito ao café que, atuando como estimulante do sistema nervoso central, pode originar insónia, pelo que não é adequado beber café à noite, sobretudo se se tomam medicamentos para dormir.”

Este é um exemplo de uma interação farmacodinâmica, que, “de um ponto de vista simplista, afeta a resposta do fármaco, podendo potenciar o seu efeito (sinergismo) ou então bloquear esse mesmo efeito (antagonismo)”, esclarece o especialista.

Outro tipo de interações alimento-medicamento podem ser cinéticas, aquelas que podem ocorrer ao nível da absorção, distribuição, metabolização ou eliminação do fármaco. “Neste tipo de interações, verifica-se uma alteração da magnitude e da duração do efeito do fármaco”, refere o diretor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

“Talvez o exemplo mais clássico seja a toma de antibióticos do grupo das tetraciclinas (mas não só) com leite ou outros produtos lácteos (uma vez que se promove a complexação deste tipo de antibióticos com o cálcio, mineral que existe em grande quantidade naquele tipo de alimentos)”. Trata-se assim de uma combinação a evitar.

Fatores de risco 

Fernando Ramos nota que existem naturalmente fatores de risco que potenciam a ocorrência de interações fármaco-nutriente: “Mesmo sem levar em linha de conta os fatores genéticos individuais, não é indiferente a patologia que afeta o doente nem, sobretudo, a idade da pessoa ou o tipo de dieta.”

Considerando que “à medida que avançamos na idade, vamos necessitando de tomar mais medicamentos para manter o equilíbrio da nossa saúde”, o especialista refere que “que quanto mais medicamentos tomarmos maior a possibilidade de ocorrer interações, não só entre fármacos e alimentos, como também dos próprios fármacos entre eles”.

Interações fármaco-alimento comuns

Existem medicamentos com os quais os cuidados devem ser redobrados, como “fármacos com uma margem terapêutica estreita ‒ como os anticoagulantes, por exemplo” ‒ ou “fármacos cuja eficácia depende da manutenção de uma concentração plasmática estável, como os antibióticos”. Fernando Ramos esclarece que, “em regra, os medicamentos são distribuídos através do sangue sob a forma livre ou ligados a proteínas, pelo que não é indiferente o teor de proteínas da dieta”. Por isso, o especialista aconselha a que, aquando da toma de medicamentos, não se façam dietas sem consultar um profissional de saúde. Nomeadamente, deve-se ter atenção a “alterações do regime proteico, seja através de dietas hiperproteicas ou hipoproteicas”.

“Não menos importante, o recurso a infusões de plantas ou chás constitui também uma fonte de interações com medicamentos que deve ser sempre evitada”, ressalta o farmacêutico.

“Finalmente, apesar de ser provavelmente o tipo de interações que o cidadão mais tem presente é aquela que acontece entre o álcool e os medicamentos. Em regra, respeita-se que não se toma antibióticos e se bebe álcool, mas há toda uma panóplia de interações com outro tipo de medicamentos, desde os que atuam no sistema nervoso central até mesmo aos antidiabéticos orais, que importa acautelar.”

Interações fármaco-nutriente benéficas

Assim como existem nutrientes que limitam a absorção de determinados medicamentos, há, por outro lado, fármacos que são mais bem absorvidos na presença de alimentos. “Nomeadamente, de alimentos gordos, como os que têm propriedades lipofílicas, como alguns antifúngicos” (por exemplo, o alho ou o coco), refere Fernando Ramos.

O especialista acrescenta também: “Não podemos ainda esquecer que, às vezes, importa evitar ou diminuir a irritação gastrointestinal e outros efeitos secundários de medicamentos, o que se consegue com a toma conjunta de alimentos. Percebe-se, assim, que por vezes seja recomendado a toma de medicamentos às refeições”. Um comportamento que, por norma, “contribui para melhorar a adesão à terapêutica”.

Toma nota:

A nutrição pode afetar a reação do organismo aos fármacos…

  • Dietas hiperproteicas, dietas que alteram a flora bacteriana e até o consumo de toranja podem afetar o metabolismo de determinados fármacos;
  • A tiramina, componente de alguns queijos, pode causar crises hipertensivas em pacientes que tomam inibidores da monoaminoxidase (usados no tratamento da depressão);
  • Deficiências nutricionais podem afetar o metabolismo e a absorção dos fármacos:
  • Deficiências proteicas e energéticas graves podem prejudicar a reação aos fármacos, reduzindo a absorção ou a ligação de proteínas e causando disfunção hepática;
  • A deficiência de cálcio, magnésio ou zinco pode prejudicar o metabolismo dos fármacos;
  • A deficiência de vitamina C diminui a atividade de fármacos metabolizados por enzimas, principalmente em idosos.

E os fármacos podem afetar a nutrição corporal…

  • Muitos fármacos afetam o apetite, a absorção dos alimentos e o metabolismo tecidual;
  • Alguns fármacos (por exemplo, metoclopramida) aumentam a motilidade intestinal, reduzindo a absorção de alimentos. Outros fármacos (como opioides, anticolinérgicos) diminuem a motilidade gastrintestinal;
  • Certos fármacos alteram o metabolismo dos minerais. Certos antibióticos (por exemplo, tetraciclinas), assim como determinados alimentos (como verduras, chá, pão) reduzem a absorção de ferro;
  • Determinados fármacos alteram a absorção ou o metabolismo das vitaminas.

Fonte: “Interações fármaco-nutriente” em http://www.msdmanuals.com

4 cuidados a ter antes de tomar um medicamento

  1. Respeitar a via de administração do fármaco: “Como sabemos há administração de medicamentos por várias vias [oral, subcutânea, nasal etc.]. É relevante reconhecer que ainda há iliteracia em saúde e que o profissional de saúde tem a responsabilidade de se certificar se o doente ficou consciente da via de administração do medicamento”, constata Fernando Ramos.
  2. Eleger a água como o líquido para a toma dos medicamentos por via oral, como cápsulas ou comprimidos (120-150 ml);
  3. Respeitar o horário da toma dos medicamentos;
  4. Tomar um medicamento em jejum significa que só se deve iniciar o pequeno-almoço 30 minutos depois. “Este é um ponto importante, e muitas vezes esquecido ou não esclarecido pelos profissionais de saúde, que pode resultar num tipo de interação não desejável alimento-medicamento”.

Quando se toma medicação regularmente e a sintomatologia se agrava sem razão aparente, deve-se procurar um profissional de saúde para avaliar a possibilidade de interações medicamentos-alimentos ou de outro tipo, afirma Fernando Ramos.

oipm.uc.pt

O Observatório de Interações Planta-Medicamento, sediado na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, dedica-se às interações alimentos-medicamento, podendo ser consultado por profissionais de saúde e público em geral.


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