Para lá do masculino e feminino: lições de diferentes culturas sobre identidade e diversidade

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Muito antes de existir a sigla LGBTQIA+ – que inclui os termos lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer/questioning, intersexo, assexuais e outras identidades e orientações, incluindo géneros não binários –, várias culturas reconheceram formas de identidade que vão além da divisão estrita entre masculino e feminino. Num momento em que as questões de género regressam ao debate público em Portugal, convidamos a olhar para a história e as tradições de diferentes povos, revelando uma realidade ampla e diversa.

Two-Spirit: identidade, cultura e espiritualidade nas tradições indígenas

Entre alguns povos indígenas da América do Norte, existe o conceito de Two-Spirit (dois-espíritos) – um termo contemporâneo que procura representar uma diversidade de identidades que, historicamente, não se enquadram nas categorias binárias de género introduzidas pela cultura ocidental.

O termo foi adotado em 1990 por líderes indígenas como forma de recuperar e unificar conceitos que haviam sido reprimidos durante o processo de colonização europeia. 

Antes da colonização, várias comunidades reconheciam – e, em alguns casos, valorizavam – pessoas que combinavam ou transcendiam expressões consideradas masculinas e femininas. Elas podiam assumir funções particulares, por vezes associadas a mediação, cura ou práticas culturais.

Como documentado em livros como Two-Spirit People (1997) e Men as Women, Women as Men: Changing Gender in Native American Cultures (1998), estas identidades não eram vistas como desvios, mas como expressões legítimas da diversidade humana, integradas em sistemas culturais mais amplos.

A imposição de normas europeias – incluindo visões rígidas sobre género e sexualidade – levou, em muitos contextos, à marginalização ou apagamento destes papéis.

Hijras na Índia: um terceiro género com séculos de história

Na Índia, as comunidades hijra existem há séculos, sendo referidas em textos históricos e integradas em certos rituais sociais e religiosos. Tradicionalmente, são reconhecidas como um terceiro género, ocupando um espaço que não corresponde nem ao masculino nem ao feminino, com funções específicas em contextos culturais e espirituais.

Historicamente, as hijras estiveram associadas a práticas rituais como bênçãos em casamentos e nascimentos, sendo, em alguns contextos, vistas como portadoras de um poder simbólico ligado à fertilidade e à transformação. A antropóloga Serena Nanda, na obra Neither Man nor Woman (1990), descreve estas comunidades como um terceiro espaço social reconhecido, ainda que marcado por ambivalência.

Apesar deste enquadramento tradicional, a realidade contemporânea é mais complexa. Muitas pessoas hijra enfrentam marginalização social e económica, refletindo tensões entre reconhecimento cultural histórico e exclusão nas dinâmicas modernas. Relatórios de organizações como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) evidenciam estas contradições, mostrando como tradições antigas coexistem com desafios significativos no presente.

Diversidade de género ao longo do tempo

Encontramos exemplos semelhantes noutras geografias e épocas. A própria ideia de diversidade de género atravessa diferentes culturas, como explora Serena Nanda no livro Gender Diversity (2014), sugerindo que as categorias rígidas são, em grande parte, construções culturais específicas – e não uma constante universal.

Mais recentemente, obras como Before We Were Trans (Kit Heyam, 2022) reforçam esta perspetiva, mostrando que a diversidade de experiências relacionadas com o género sempre existiu, ainda que nomeada e compreendida de formas diferentes ao longo do tempo.

Para além dos rótulos: um convite à reflexão

Também no campo simbólico e espiritual surgem pistas interessantes. Na filosofia chinesa, o yin e o yang representam forças complementares que coexistem e se interpenetram, uma visão amplamente divulgada em obras como The Tao of Pooh (1982).

No contexto hindu, a união entre Shiva e Shakti simboliza a fusão entre princípios associados ao masculino e ao feminino, sugerindo que ambos coexistem em tudo o que é vivo – uma ideia presente em diversas tradições filosóficas e textos clássicos.

Estas referências revelam algo essencial: a experiência humana sempre foi mais diversa, mais fluida e mais complexa do que classificações rígidas muitas vezes permitem.

Identidade não é apenas uma questão de definição externa, mas também de experiência interna. E, em muitas tradições, o equilíbrio não surge da escolha de um polo, mas da integração de ambos.

Num mundo que frequentemente procura dividir e categorizar, estas perspetivas lembram-nos que, para lá do masculino e do feminino, existe um território de interseção – onde a identidade é menos sobre rótulos e mais sobre consciência.

Referências bibliográficas

Livros 

Online

Foto de Gabriel Vasiliu na Unsplash

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