Assinala-se a 31 de março o Dia Nacional do Doente com Acidente Vascular Cerebral, uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal

Por Paula Costa, professora de Yoga, Meditação e Yogaterapia e sobrevivente de acidente vascular cerebral. Fundadora do projeto Yogaterapia pós-AVC
3 minutos de leitura
Há frases que demoram tempo a revelar o seu verdadeiro significado. Uma vez ouvi uma fisioterapeuta dizer: “deixem os médicos”. Estava num contexto onde se reuniam médicos, fisioterapeutas, sobreviventes de AVC e cuidadores. Eu, que tinha sofrido um AVC meses antes, senti que tinha ouvido algo importante, embora ainda não entendesse verdadeiramente o que aquela frase significava.
Com o tempo, percebi melhor que “deixem os médicos” não significa rejeitar a medicina. A medicina é essencial: salva vidas, estabiliza, acompanha. Mas há uma parte da recuperação que não pode ficar entregue apenas ao olhar clínico. Há necessidades que não se resolvem só com exames, consultas, fisioterapia ou medicação.
Depois de um AVC, não basta sobreviver ao evento; é preciso voltar a participar na própria vida.
Depois de um AVC, a pessoa precisa também de encontrar possibilidades fora da área clínica: espaços de reconexão com o corpo, com a respiração, com a autonomia, com a confiança e com a própria vida. O caminho pode ser apoiado por outros, mas não pode ser percorrido por ninguém no lugar da própria pessoa. Depois de um AVC, não basta sobreviver ao evento; é preciso voltar a participar na própria vida.
O yoga como caminho
O yoga já fazia parte da minha vida antes do AVC, e a prática tinha-me mostrado que a transformação acontece no contacto diário com o corpo. Depois do AVC, isso tornou-se ainda mais evidente. Mais do que aquilo que conseguia ou não fazer, o essencial passou a ser o sentir: como e onde sentia, o que estava presente e o que estava ausente. Tendo perdido a sensibilidade do lado esquerdo, não o ignorei – procurei criar pontes, convidando-o a reaprender.
Para mim, foi profundamente importante colocar os pés na areia, sentir a textura, observar as diferenças sem julgamento e agradecer simplesmente por estar ali e por ainda poder sentir.
As práticas respiratórias trazem energia, ajudam a relaxar o corpo e a mente e devolvem presença a quem tantas vezes vive entre medo, rigidez e fadiga.
Foi desse lugar que nasceu o projeto Yogaterapia Pós-AVC: da importância de tratar com carinho a parte afetada, respeitar um corpo debilitado e compreender que corpo e mente se reorganizam em conjunto, muitas vezes como uma criança que aprende a dar os primeiros passos.
A respiração, o prana, tem aqui um papel central. As práticas respiratórias trazem energia, ajudam a relaxar o corpo e a mente e devolvem presença a quem tantas vezes vive entre medo, rigidez e fadiga.
Reabilitar não é o mesmo que recuperar
A fisioterapia é fundamental neste caminho e tem um papel indispensável na reabilitação, mas reabilitar e recuperar não são a mesma coisa. A reabilitação pode ter etapas, metas e ganhos observáveis; a recuperação é mais vasta, mais lenta e, para muitas pessoas, prolonga-se pela vida fora.
Porque viver depois de um AVC não é simplesmente voltar ao que se era antes. É aprender a habitar um corpo que mudou, uma mente que mudou, uma vida que mudou – mesmo sabendo que, no fundo, a vida está sempre em mudança.
É por isso que tenho dificuldade em olhar para uma pessoa em fase crónica como um “doente com AVC”. Um acidente vascular cerebral pode deixar marcas profundas, mas não define a pessoa, nem diz tudo sobre quem ela é.
Ver a pessoa além do AVC
Muitas vezes a pessoa é avaliada apenas pelas sequelas que se veem, mas há muito mais que não fica visível. Há perdas, adaptações, medos, esforço invisível, reorganizações internas e uma vida inteira a tentar encontrar um novo equilíbrio. A recuperação humana não se esgota na área clínica.
É importante reconhecer outras possibilidades que devolvam à pessoa dignidade, participação e capacidade de decisão sobre a sua própria vida. É isso que a yogaterapia procura fazer: devolver poder ao sobrevivente de AVC.
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Foto de Patrick Schneider na Unsplash
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