Do estigma à terapia: os psicadélicos na saúde mental

Hoje assinala-se o Dia Mundial dos Psicadélicos. Durante décadas, substâncias como o LSD ou os “cogumelos mágicos” foram associados a contracultura, festivais e delírios psicóticos, mas atualmente vivem um renascimento ‒ em hospitais, universidades e clínicas psiquiátricas. Da depressão à ansiedade, passando pelo trauma e até dependências, os psicadélicos estão a desafiar o paradigma tradicional da medicina mental.

Estudos científicos demonstram que substâncias como a psilocibina (o princípio ativo dos “cogumelos mágicos”), o MDMA (conhecido como ecstasy) e o LSD podem produzir melhorias clínicas rápidas e duradouras em pessoas com depressão resistente, stresse pós-traumático e ansiedade existencial.1,2,3

Segundo uma meta-análise publicada no início de 2024, a psilocibina demonstrou uma eficácia terapêutica das mais elevadas já registadas em ensaios clínicos de saúde mental ‒ em muitos casos equivalente ou superior à dos antidepressivos convencionais, sendo que os efeitos positivos surgem após apenas uma ou duas sessões, com mínimos efeitos secundários, quando usada em ambiente clínico e supervisionado.1

Várias universidades de topo, como Johns Hopkins, Imperial College London ou Yale, criaram centros de investigação dedicados exclusivamente aos psicadélicos. A psilocibina e o MDMA estão em fase final de aprovação pela Food and Drug Administration (FDA agência reguladora dos EUA) para uso terapêutico controlado. De resto, a FDA já deu à psilocibina e ao MDMA o selo de “Breakthrough Therapy”, acelerando a sua aprovação para uso clínico.4

Ao mesmo tempo, startups de biotecnologia e empresas farmacêuticas como a Compass Pathways e a MindMed investem milhões na criação de versões sintéticas, patentes, protocolos de administração e clínicas especializadas. A indústria chama-lhe a “próxima revolução terapêutica”, falando-se até numa “corrida do ouro psicadélico”.5

Entre o hype e a esperança

Apesar do entusiasmo, os especialistas alertam: os psicadélicos não são substâncias recreativas comuns, nem devem ser usados de forma recreativa sem conhecimento dos riscos. Os efeitos são potentes e imprevisíveis, podendo abrir feridas emocionais profundas daí a importância do chamado “set and setting” (estado emocional e ambiente) e da integração após a experiência. Devem ser usadas apenas com supervisão especializada e integração terapêutica.6

Além disso, uma legalização e comercialização acelerada levanta questões éticas: será que o acesso ficará restrito a elites? Como proteger saberes tradicionais, como os de comunidades indígenas que utilizam substâncias como a ayahuasca há séculos?

Nos bastidores da vida urbana, cresce outro fenómeno: o da microdosagem ‒ ingestão de doses subpercetíveis de psicadélicos para aumentar foco, criatividade e bem-estar7. Aproximadamente 3% dos adultos norte-americanos (cerca de 8 milhões) usaram psilocibina no último ano, e 47% desses casos referiram microdosagem. Embora o fenómeno esteja na moda entre profissionais criativos e empreendedores, os estudos sobre os seus efeitos ainda são preliminares.8

Uma nova visão da mente?

Muitos participantes em terapias psicadélicas relatam experiências místicas, de conexão profunda com o eu ou com o universo, e descrevem-nas como entre as mais significativas das suas vidas. Estes estados alterados não são apenas colaterais: parecem promover uma reestruturação duradoura do pensamento e da identidade, o que pode explicar parte do seu impacto terapêutico.

Mais do que tratar sintomas, os psicadélicos parecem oferecer novas formas de ver o eu, a vida e a morte. Muitos pacientes descrevem as experiências como “místicas” ou “espirituais”. Cientistas estudam agora os efeitos dessas experiências de “união” ou “transcendência” no bem-estar duradouro.

Num tempo em que tantas pessoas se sentem desconectadas de si e do mundo, talvez o poder destas substâncias esteja, mais do que na química, na capacidade de reconectar.

Nota: O uso de substâncias psicadélicas é ilegal em muitos países. Este artigo é informativo e não constitui recomendação de uso. Procura sempre orientação médica e científica.

Foto de Noor Din

Referências:

1. Yao Y, et al. “Efficacy and safety of psychedelics for the treatment of mental disorders: A systematic review and meta-analysis”. Psychiatry Res. 2024 URL: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38574699/

2. https://maps.org/2023/09/13/maps-pbc-publishes-results-of-successful-confirmatory-phase-3-trial-of-mdma-assisted-therapy-for-ptsd/

3. The Times: “Magic Mushrooms enter mainstream as treatment for depression”

4. https://www.fda.gov/media/178984/download

5. New York Magazine: “Who Will Own the ‘God Molecule’?”

6. Guia MAPS: Segurança e ética no uso de psicadélicos

7. “How Microdosing Mushrooms Became Trendy”. PopSugar, jun 2025.

8. https://www.rand.org/news/press/2024/06/27.html


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