Asteya: um olhar mais profundo sobre não-apropriação

6 minutos de leitura

Por Jyoti, professora de Yoga*

Nesta rubrica mensal, continuamos a explorar os oito membros do Yoga, começando pelos Yamas – princípios éticos e sociais. Yama significa “freio” ou “domínio” em sânscrito e é composto por cinco disciplinas morais orientadas para o mundo exterior (e, como consequência, para ti própri@). Os Yamas convidam-nos a refletir sobre as nossas interações e o nosso papel na sociedade, a observar quem somos e como podemos viver de forma mais autêntica, consciente e alinhada. O Yama deste mês é Asteya, que se traduz por não roubar, ou não-apropriação. 

Asteya é o terceiro princípio dos Yamas. Traduz-se por não roubar. E, tal como acontece com ahimsa e satya, há mais neste yama do que aquilo que parece à primeira vista. Roubar é definido como “apropriar-se indevidamente da propriedade de outra pessoa, especialmente como uma prática habitual ou regular”. Todos sabemos que não se deve roubar. Mas, nos Yoga Sutras (texto clássico da filosofia do Yoga), somos apresentados a um significado mais profundo que nos mostra como roubar nem sempre está relacionado com tirar algo físico a outra pessoa. Pode ser um roubo por intenção, manipulação ou engano. Pode acontecer através de pensamentos, palavras ou ações. Pode ser roubar algo não físico aos outros ou até a nós própri@s. Vamos explorar…

Tempo, o teu recurso mais precioso

É da natureza da mente divagar. Mas, para muitos de nós, a mente é que conduz, e estamos no lugar do passageiro em vez de estarmos ao volante. Roubamos a nós próprios o momento presente ao vivermos no passado ou no futuro. Metade do tempo estamos a ruminar sobre o que aconteceu, a desejar poder reviver ou mudar, a criticar o eu do passado. Entretanto, na outra metade estamos em contagem decrescente para sexta-feira, para aquela viagem, para aquelas férias, para aquela festa, para qualquer coisa que não o momento em que estamos. Vivemos a vida como uma lista de tarefas – a tentar riscar cada coisa enquanto acrescentamos mais três. É assim que acabamos por perder a maior parte da nossa vida. Quando nos sentimos em baixo, ansiosos ou stressados. Quando sentimos que a vida nos acontece, em vez de acontecer para nós. Quando perdemos momentos bonitos mesmo à frente dos nossos olhos. E é um ciclo difícil de quebrar.

Como viver no presente quando a nossa sociedade prospera precisamente com vivermos em tudo menos nele? Com o Yoga, claro. A essência do Yoga é viver no momento presente – o único momento que temos. Quando estamos no tapete, voltamos constantemente ao momento presente usando a respiração ou o corpo como âncora. Aprendemos a tornar-nos observador@s em vez de sermos levad@s pelos pensamentos e sensações. Começamos a compreender a nossa natureza cíclica e em constante mudança e aprendemos a aceitá-la e honrá-la. Encontramo-nos com gentileza e compaixão em qualquer momento.

Estas são práticas que podemos levar do tapete para a vida diária para estarmos presentes e deixarmos de roubar tempo a nós própri@s. À medida que nos tornamos mais presentes, experienciamos mais alegria e as pessoas à nossa volta também. Começamos a viver num estado de asteya.

“A comparação é o ladrão da alegria”

Esta é uma citação [atribuída a Theodore Rosevelt] com a qual estamos familiarizados, mas por que continuamos a comparar-nos? Cresci a ser comparada com os meus irmãos, primos e colegas, e a comparar-me com amigos e colegas. E, hoje em dia, com as redes sociais, dou por mim a comparar-me com completos desconhecidos que nunca vou conhecer. As redes sociais certamente exacerbaram esta relação de amor-ódio com a comparação e a maioria de nós compara os seus piores dias com os momentos de destaque dos outros. Damos por nós a viver através das câmaras do telemóvel e a fazer coisas que ficam bem no Instagram, em vez de viver e desfrutar do momento. Isto leva-nos a roubar a nossa própria paz interior e alegria. Ficamos com sentimentos de inadequação, de não sermos suficientes e de inveja. Então como podemos ir à raiz do hábito de comparação e começar a pará-lo?

Primeiro, podemos praticar gratidão pelo que temos. Se nos sentirmos contentes com a nossa própria vida, os sentimentos de inadequação diminuirão ao olharmos para os outros. Através da prática de Yoga, aprendemos que tudo aquilo de que precisamos vem de dentro; por isso, deixamos de procurar fora para nos sentirmos bem. Aprendemos que as posses materiais não trazem a felicidade duradoura que procuramos; por isso, lentamente deixamos de comparar o que temos com o que os outros têm. Passamos a compreender que estamos todos unidos; por isso, ao roubarmos aos outros, estamos também a roubar a nós próprios.

Estas são lições abstratas que são fáceis de pensar mas difíceis de pôr em prática. Por isso, abaixo proponho um exercício de journaling para ajudar a chegar à raiz da tua comparação e explorar o teu mundo interior. Vais precisar de um caderno, uma caneta e muita auto-compaixão. Sê gentil e compassiv@ contigo ao fazer este exercício:

  • Pensa em alguém com quem te comparas frequentemente — pode ser uma pessoa que conheces ou não, que ainda faça parte da tua vida ou que já não faça, etc.
  • Repara no que surge em ti – o que é, nessa pessoa, que te desperta algo ou te deixa desconfortável? Vai retirando as camadas. Exemplo: Sinto-me insegur@ quando vejo a pessoa X ir de férias regularmente porque raramente priorizo a minha necessidade de aventura.
  • Ao fazer isto, estamos a lançar luz sobre o nosso lado sombra – a abraçar as partes de nós que não queremos que os outros vejam e que escondemos do mundo e de nós própri@s.
  • Isto levar-te-á a compreender de onde vem o sentimento – por exemplo: sinto-me assim porque não tenho um plano X ou porque não fiz a escolha Y.
  • Com esta perceção, conseguimos definir a nossa versão de “sucesso” nessa área, estabelecer intenções e fazer um plano.
  • A partir daqui reconectamo-nos connosco – voltamos a casa.

Com o tempo, isto traduz-se numa maior clareza interior – sabes e compreendes quem és e o que valorizas. Assim, aquilo que antes era ativado quando vias essa pessoa deixa de surgir.

Lembra-te: trata-se de um trabalho em progresso e pode voltar no futuro. Se acontecer, já tens as ferramentas para lidar com isso.

Com amor e gratidão.

*Artigo adaptado do original publicado pelo parceiro Ekotex Yoga.

Foto de Rosario Janza

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