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Assinala-se hoje, 27 de março, o Dia Nacional do Dador de Sangue. Símbolo de vida e veículo de inúmeros processos biológicos essenciais, o sangue guarda também informações sobre o nosso perfil imunológico e traços genéticos, refletindo ancestralidade e significados culturais e sociais.
Constituído por quatro componentes principais – plasma, glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas –, o sangue é um tecido líquido complexo que circula pelo sistema cardiovascular e desempenha funções vitais no organismo, como o transporte de oxigénio e nutrientes, a defesa imunológica e a coagulação.
Os tipos de sangue são classificados pelo sistema ABO (grupos A, B, AB, O) e pelo fator Rh (positivo ou negativo), totalizando oito tipos: A+, A-, B+, B-, AB+, AB-, O+ e O- (ver caixa). Cerca de 90% da população mundial é Rh positivo, ou seja, tem a proteína Rh nos glóbulos vermelhos. O tipo O- é doador universal (compatível com todos), enquanto o AB+ é recetor universal.
Conhecer o tipo sanguíneo é crucial para emergências e para o sistema de saúde, pois a compatibilidade é essencial para transfusões seguras, evitando reações imunológicas.
Alimentação segundo o tipo sanguíneo?
Algumas teorias modernas exploram a relação entre tipos sanguíneos e alimentação. A chamada “dieta do tipo sanguíneo”, popularizada pelo médico Peter D’Adamo (Eat Right for Your Type, 1996), sugere que cada tipo teria padrões alimentares supostamente ideais.
Por exemplo, indivíduos do tipo O, historicamente caçadores-coletores, seriam beneficiados por uma dieta rica em proteínas animais, vegetais e frutas, com restrição de grãos e laticínios, enquanto os do tipo A, ligados a sociedades agrícolas, tenderiam a adaptar-se melhor a dietas mais vegetarianas e cereais integrais. Já o tipo B teria tolerância maior a laticínios e carnes variadas, evitando frango, milho e trigo, e o tipo AB beneficiaria de uma abordagem equilibrada, incluindo carnes magras, tofu, vegetais e laticínios.
Embora existam estudos preliminares sobre digestão de proteínas e metabolismo, não há evidência científica robusta que comprove a eficácia da dieta baseada no tipo sanguíneo. Ainda assim, a teoria é interessante como ferramenta de reflexão sobre hábitos alimentares adaptados a necessidades individuais, ancestralidade e estilo de vida.
Ketsueki-gata, personalidade e imaginário cultural
No Japão e noutros países do Leste Asiático, é popular a ideia do ketsueki-gata – a teoria e crença cultural de que o tipo sanguíneo pode influenciar traços de personalidade. Segundo esta tradição, que surgiu na década de 1920, com estudos de médicos e psicólogos japoneses, cada tipo sanguíneo estaria associado a determinadas características de personalidade, temperamento e até compatibilidade interpessoal. Por exemplo, indivíduos do tipo O são frequentemente descritos como enérgicos e líderes naturais, enquanto os do tipo A seriam diplomáticos e atentos às necessidades alheias, os do tipo B seriam criativos e independentes, e os do tipo AB combinariam traços de ambos, sendo considerados intuitivos e complexos.
Embora esta teoria não tenha base científica comprovada, faz parte do imaginário cultural japonês, aparecendo em revistas, apps de encontros e até currículos de emprego – revelando como sociedades buscam significados simbólicos nas características biológicas.
Doar sangue salva vidas
Em todo o mundo, doadores voluntários salvam milhões de vidas anualmente, mantendo stocks para transfusões, cirurgias e tratamentos de doenças crónicas. Pesquisas indicam que doar sangue não beneficia apenas os recetores; também traz vantagens físicas e emocionais ao doador. Por exemplo, estudos apontam que a doação regular pode reduzir o excesso de ferro no organismo, diminuir risco cardiovascular e aumentar sensações de bem-estar e conexão social. Do ponto de vista espiritual e psicológico, o gesto de doar sangue é percebido como um ato de altruísmo, fortalecendo o senso de empatia e solidariedade.
Critérios para a dádiva de sangue
Num contexto em que os bancos de sangue dependem da solidariedade dos cidadãos, cada doação pode fazer a diferença. De acordo com o Serviço Nacional de Saúde (SNS), “todas as pessoas que cumpram os requisitos de elegibilidade básicos para a dádiva de sangue podem candidatar-se a realizar uma doação: mais de 18 anos de idade, de 50Kg de peso e com estilo e hábitos de vida saudáveis”.
Antes da dádiva, é realizada uma avaliação clínica por um profissional de saúde para avaliação individual do risco das circunstâncias clínicas. Se não forem identificadas situações que possam pôr em causa a segurança de dador e recetor, pode fazer-se a doação.
Quem tem pelo menos duas doações nos últimos 12 meses (ou 30 ao longo da vida) pode ficar isento do pagamento de taxas moderadoras no SNS.
Consulta as sessões de colheita a nível nacional em dador.pt.
Informar-se, conhecer o próprio tipo sanguíneo e, se possível, doar sangue regularmente são gestos simples que ajudam a salvar vidas.
| Tipo sanguíneo | Pode doar para | Pode receber de |
| A− | A−, A+, AB−, AB+ | O−, A− |
| A+ | A+, AB+ | O−, O+, A−, A+ |
| B− | B−, B+, AB−, AB+ | O−, B− |
| B+ | B+, AB+ | O−, O+, B−, B+ |
| AB− | AB−, AB+ | O−, A−, B−, AB− |
| AB+ | AB+ | Todos |
| O− | Todos | O− |
| O+ | O+, A+, B+, AB+ | O−, O+ |
Referências:
- D’Adamo, P., & Whitney, P. (1996). Eat Right 4 Your Type. G. P. Putnam’s Sons.
- Japanese Red Cross Society. Blood Types and Personality: Cultural Background. https://www.jrc.or.jp/
- American Red Cross. Blood Donation: Benefits and Eligibility. https://www.redcross.org/
- Li, Y. et al. (2018). Psychosocial and physiological effects of blood donation. Transfusion, 58(6), 1352–1361.
- Yamamoto, T. (2011). Ketsueki-gata and social perception in Japan. Japanese Psychological Research, 53(2), 123–136.
- https://www.hospitaldaluz.pt/pt/dicionario-de-saude/tipos-sangue-caracteristicas-regras
Foto de Debby Ledet na Unsplash
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