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Refúgio remoto aninhado entre colinas de floresta densa e cursos de água no centro de Portugal, perto do Zêzere, o Vale de Moses situa-se na freguesia de Amieira, município de Oleiros. Durante cinco dias de abril, estivemos neste lugar encantado, onde o mundo exterior parece dissolver-se e cada instante convida à contemplação, à calma e à renovação.
Por Ana João
Ohayou (bom dia em japonês), de patas jovens e ligeiras, é o primeiro a fazer as honras do Vale de Moses, galgando feliz a ladeira e cumprimentando as três primeiras hóspedes a chegar ao Conscious Arts Retreat, pelas onze da manhã daquela segunda-feira, 6 de abril. Moksha (libertação, em sânscrito), 13 anos caninos, também se aproxima para umas festas bem-vindas, e logo depois um abraço a Joshua Winter, retreat manager, que nos acolhe de sorriso largo.
Com Clara, professora londrina, e Martina, estudante milanesa, atravessamos o portão vermelho da propriedade onde, durante cinco dias, vamos imergir no yoga, na arte e na comunhão com a natureza. Pousamos as malas, acenamos brevemente às plantas e árvores que aqui vivem – aloe vera, lavanda, cerejeira em flor, entre outras – e, passando os olhos pelo Yoga Shala envidraçado, conhecemos Safira, mãe de Moksha, repousada no seu pequeno colchão. Também andam por aí os gatos Tomato, Ras e Tafari, mas só os conhecerei, dois deles, dias depois, de tão pouco ou nada que aparecem (evitando – informaria Joshua com graça – cruzar-se com Ohayou, vizinho de visita).





Descemos as escadas exteriores da casa principal, rústica de pedra. À nossa espera, uma refeição leve de boas-vindas, preparada pelo chef Sheran. Entre dedos de conversa, vamos conhecendo os restantes membros da equipa que se encarregará de nos proporcionar uma experiência, já sentimos, especial: Margarida, a professora de Yoga; Ana e Eloise, companheira e irmã de Joshua, que irão, respetivamente, facilitar os workshops de cerâmica e escrita criativa; Aissa, que logo guiará uma oficina de cadernos artesanais; e Ismael, fotógrafo – também criador, poderemos em breve provar, das melhores sobremesas. Sem esquecer, claro, Elijah e Samara, os pequenos.
Entretanto à mesa, cá fora, Joshua conta-nos brevemente a aventura da família que encontrou, em 2007, este vale encantado. “Os meus pais tinham iniciado connosco [os filhos, então com dez e oito anos] uma viagem pelo sul da Europa numa autocaravana. Depois de viajarmos por França, Itália e Espanha, chegámos a Portugal e encontrámos esta antiga quinta abandonada, com o mesmo nome do nosso cão, Moses [Moisés, em inglês]. No fundo, foi ele que nos conduziu, por feliz acaso, à nossa própria terra prometida”, sorri o retreat manager.
“Tirámos um ano de pausa do trabalho e da escola para estarmos juntos em família, viver uma aventura extraordinária e, talvez, descobrir se existia na Europa uma forma de vida mais sustentável e ligada à natureza do que o ritmo frenético que levávamos em Londres”, afirmaria Andrew Winter, o pai, que iríamos conhecer ao pequeno-almoço de sexta-feira. “Termos encontrado, em setembro de 2007, o Vale de Moses foi para nós uma coincidência quase divina! Até porque foi o Moses que descobriu fisicamente a quinta, que tínhamos visto online… A imobiliária não nos podia mostrar a propriedade no curto prazo e, como na altura não falávamos português para comunicar com os habitantes locais, a Von pediu ao Moses que nos mostrasse o caminho. Ele partiu imediatamente pelos trilhos da floresta e nós seguimo-lo”, recorda Andrew, viúvo desde 2024.
Seguiram-se cinco anos de trabalho de recuperação e paisagismo pela família Winter, visando um modo de vida mais autossustentável, até que Vale de Moses recebeu, em 2012, os primeiros hóspedes de retiros de yoga, assentes na formação e experiência profissional de Vonetta. Durante cerca de 12 anos, este lugar acolheu mais de 4 mil pessoas de cerca de 90 países e teve a honra de ser listado como um dos melhores retiros do mundo pela National Geographic Traveller, Forbes Magazine, The Guardian e várias publicações de yoga.




Com o agravamento do estado de saúde e o falecimento da matriarca, há cerca de ano e meio, Joshua e a companheira Ana passaram a disponibilizar o espaço a facilitadores de práticas terapêuticas, entre abril e novembro. Este Conscious Arts Retreat, em que acabámos de nos embrenhar, é o primeiro organizado pela segunda geração da família. Mas nem notaríamos a estreia. Toda a equipa personifica naturalmente o espírito sereno, acolhedor e sábio de Vale de Moses.
Levantemo-nos da mesa onde iremos continuar a provar, pelos próximos dias, as melhores e mais belas refeições vegetarianas. Joshua mostra-nos agora outras instalações: o quarto de Martina, junto da casa principal, e, mais abaixo – já depois de nos cruzarmos com as galinhas poedeiras e os porcos vietnamitas Amelia e George, estes circulando livremente –, a casa onde Clara e eu vamos pernoitar, juntamente com Joana, a caminho.
O sol primaveril brilha e aquece esta hora a pique. A piscina e as espreguiçadeiras estão perto e mesmo tentadoras, mas decidimos, por agora, as três, desbravar um curto trilho que serpenteia um dos cursos de água do Vale. Descobrimos umas ruínas, piscinas naturais, uma pequena cascata, camas de rede aqui e ali e o sweat lodge (cabana de sudação) – que vamos querer, pois claro, experimentar.

Com vagar, respiramos o ar puro. Aqui temos tempo para tudo.
Nunca é tarde
It’s never too late to be who you might have been (Nunca é tarde demais para ser quem poderias ter sido), lemos uma placa algures a voltar à casa principal, perto da hora de almoço. Boas-vindas a Ece, quarta hóspede desta semana. Coincidências da vida (ou não!), ficamos a saber que a colega, turca a viver em Portugal, em tempos idos trabalhou, como Joshua, na Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN) – acabaram ambos, formados em Física, de descobrir em conversa.
Corpos quânticos mais que nutridos, e grupo completo com Joana e Cláudia, também entretanto chegadas, em breve é tempo de nos reunirmos no Yoga Shala, com vista de tirar o fôlego para o verde arborizado das colinas ao fundo… A aula inaugural de yoga será daqui a pouco; por agora, dedicamo-nos à oficina de encadernação ministrada por Aissa, fundadora da Nómada Notebooks.
Estamos – também com Ana, Eloise e Margarida – dez mulheres sentadas no chão, quase em círculo, entretidas por entre folhas de papel colorido, recortes, retalhos, carimbos, missangas, a criar cada uma o seu caderno artesanal.
“Acho que não pegava numa tesoura há uns vinte anos…”, solta alguém, com um sorriso lembrando a sua criança interior.
Criatividade sempre terapêutica em dia, pelas 17h esticamo-nos então no tapete, sob as orientações suaves e conscientes de Margarida. Tinha saudades disto, dou por mim a pensar, habituada a asanas sozinha em casa. Que bom é tê-la a guiar-nos nas posturas – e a lembrar que estamos aqui para largar o “doing mode” (modo fazer) em favor do “being mode” (modo ser).
Em savasana, no final, até dormito uns instantes.
Prakriti, vikriti
Vata/Pitta (ou Pitta/Vata?) como sou, segundo o Ayurveda – tanto na constituição dóshica original (prakriti) como adquirida (vikriti) –, até que me faria bem engordar um pouco, mas se estas refeições continuam assim, vai ser fácil demais… Saborosa tortilha de ovo e espinafres com legumes variados de guarnição… Nem falta como sobremesa um bolo de chocolate, dos melhores alguma vez provados.
Joana, médica de pensamento rápido e memória certeira, haveria de contar lá para o quarto dia os ingredientes consumidos nas três refeições diárias de Vale de Moses. No total, passarão dos cinquenta, entre legumes, frutas, cereais, frutos secos, sementes, ervas e especiarias!
Cláudia, livreira, informaria entretanto um dado interessante: investigações sugerem que pessoas que consomem cerca de 30 alimentos vegetais diferentes por semana tendem a apresentar uma maior diversidade do microbioma intestinal, padrão associado a melhores indicadores de saúde1.
A noite começa a cair, a temperatura também. A conversa está boa e as colegas ficam mais um pouco, mas eu decido recolher-me. Joshua acompanha-me na descida até à casa; vai acender a salamandra. Mostra-me, solícito, os passos, para que nos serões seguintes possamos acender, se preciso for.
Yoga, massagem e arte
Dia 2. Aula com Margarida pelas 8h30. Somos pontuais neste momento de união, e ao pequeno-almoço do chef Steven, também. À mesa, com as palmas das mãos juntas, a professora de yoga ora:
Itadakimasu.
Uma expressão japonesa dita antes de começar uma refeição para expressar gratidão pelo alimento, pelos seus preparadores e pela natureza.
Papas de aveia, pudim de chia, iogurte, frutas variadas, smoothie, mel dos deuses… Está tudo maravilhoso, mas desta vez não demoro, que tenho massagem abhyanga marcada.

Procuro no telefone o centro ayurvédico Vedopavan, vizinho e parceiro do Vale de Moses. Qual a probabilidade de Kewal e Smruti – ele médico de Ayurveda, ela terapeuta –, mudados de Inglaterra com os filhos há cerca de dois anos, viverem e trabalharem a apenas 10-12 minutos a pé? Sorrio com os acasos da vida e ponho-me ao caminho.
Smruti acolhe-me com simpatia e delicadeza. Estou em boas mãos… No fim, relaxadíssima, ainda tenho direito a um escalda-pés e, claro, um chá.
Chuvisca um pouco na volta mas até sabe bem.
Provavelmente energizada, ainda vou trabalhar ao computador, mas pouco, que estes dias são em being mode, e o almoço régio é às 14.
Bolinhos de grão e batata, quinoa, brócolos, salada. Entre garfadas nutritivas, falamos disto e daquilo e Martina até ensina uma palavra italiana:
Abbiocco.
Aparentemente sem tradução, descreve a sonolência e letargia que surge após uma refeição farta. É como nos sentimos.
Há de passar – quando pusermos a mão na argila, no workshop dado por Ana, ceramista. Junta-se a nós Idalina, vizinha convidada. Que tarde bem passada modelando chávenas, malgas e outras peças, e escolhendo os seus tons futuros. Promete-nos Ana que irão a cozer e em breve chegarão a cada casa.
Esta é, pelo menos, o terceiro souvenir que levaremos desta experiência além do tangível. Outros ainda se criarão: Pequenos altares de cerâmica, desenhados e pintados numa tarde sem pressa – onde não falta o sweat lodge, alternado com banhos e redes espreguiçadas… Páginas de escrita criativa com Eloise, jovem joalheira de riso fácil – entre gargalhadas e lágrimas, scones às pepitas e infusão de rooibos barbadiano… Uma carta ao nosso eu futuro – ao som quase hipnotizante da shruti box da Margarida…
Kundalini, pranayama e Ayurveda
Sexta-feira, uma da tarde. Depois de conhecermos Andrew Winter (regressado de um torneio de cricket, para gáudio do companheiro Ohayou) e escutarmos algumas das suas histórias e visões de vida, Clara desafia-nos para uma sessão de kundalini yoga. Cláudia está na consulta com Kewal, mas as restantes quatro, já com prakritis e vikritis conhecidas e prescrições ayurvédicas anotadas, aderimos de bom grado, que todos os momentos neste Yoga Shala rodeado de verde são imperdíveis.


Entre exercícios de ativação da energia que nasce na base da coluna, ora de olhos abertos, ora fechados, a jovem inglesa ensina o pranayama sheetali, refrescante técnica respiratória do yoga, e até partilha, no fim, uns instantes de reiki a cada uma de nós…
Em breve, tempo do último almoço, hoje novamente sob a batuta do chef Sheran.
“Então o que achaste da consulta?”, aproveitamos para perguntar a Cláudia, pela primeira vez em contacto com o Ayurveda – assim como as meninas da ciência Joana e Ece.
“Foi interessante, faz sentido… Fiz-lhe imensas perguntas! Tenho constituição Vata/Pitta, atualmente com ligeiro desequilíbrio em Vata…”
Mostra-nos o seu receituário. Alguns conselhos são comuns a todas: fazer umas 12 saudações ao sol a cada dia; praticar pranayama; comer apenas com fome e, se possível, um pouco menos do que o apetite (este pode esperar!); mastigar bem cada pedaço…
“O Ayurveda é a mais antiga das medicinas, a chamada ciência da vida”, comento, encantada por cada vez mais pessoas terem a oportunidade de contactar com esse conhecimento védico milenar.
Ritual ao som da fogueira
As palavras não chegam nem fazem jus a todas as vivências neste Vale mágico – consola-me Margarida, com um abraço na hora da despedida, perante o meu confronto com a escrita iminente desta reportagem.
A professora de yoga abala esta tarde, Aissa e a sua arte já tiveram que ir de manhã cedo. Faltam assim a um dos momentos-altos (mais um): a cerimónia com fogueira, num espaço circular dedicado.
Apreciando um chocolate quente reconfortante, com natas batidas a gosto, escrevemos nos nossos cadernos o que sentimos e o que levamos daqui. Numa folha à parte, o que já não queremos carregar. Palavras negativas que serão lançadas ao fogo, num gesto de transmutação e purificação.
Nem faltam relâmpagos tropicais, iluminando o último anoitecer! À mesa, depois do jantar, todos juntos, lemos estórias inventadas há pouco e rimos com gosto, petiscando um bolo de laranja, cá nascida e colhida.


Reminder: modo ser
Sábado amanhece cedo.
Em breve regressamos, seis magníficas, a casa. Hoje não há breakfast do chef, mas esperam-nos uns mimos também deliciosos numa pastelaria em Oleiros, perto da paragem do bus para Lisboa.
Eloise, Ismael e Joshua – qual dos três o sorriso mais encantador – acompanham-nos até ao fim; Ana, ficando com as crianças em casa, já se despediu há pouco. Abraços e beijos a todos. Já temos saudades da família de Vale de Moses. Das pessoas, dos animais, da natureza e tudo o mais que tornou este retiro um dos melhores de sempre.
O American Gut Project é um projeto de investigação em microbioma humano de base cidadã, associado à University of California San Diego. Lançado em 2012, tornou-se um dos maiores estudos de ciência cidadã nesta área, com voluntários a enviar amostras e dados de estilo de vida para análise. Atualmente, integra a The Microsetta Initiative, que continua a expandir este modelo a novos contextos e populações.
Fotos de Ismael Bernardo e participantes no Conscious Arts Retreat
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