Satya: um olhar mais profundo sobre a verdade

Por Jyoti, professora de Yoga*

5 minutos de leitura

Nesta rubrica mensal, continuamos a explorar os oito membros do Yoga, começando pelos Yamas – princípios éticos e sociais. Yama significa “freio” ou “domínio” em sânscrito e é composto por cinco disciplinas morais orientadas para o mundo exterior (e, como consequência, para ti mesm@). Os Yamas convidam-nos a refletir sobre as nossas interações e o nosso papel na sociedade, a observar quem somos e como podemos viver de forma mais autêntica, consciente e alinhada. O Yama deste mês é Satya, que significa veracidade ou verdade.

Desde muito cedo somos ensinados a não mentir. Aprendemos a importância da verdade. Em crianças, dizemos apenas a verdade e, como professora do ensino básico, posso garantir que as crianças pequenas são brutalmente honestas. Não se contêm.

À medida que crescemos, aprendemos que existe uma zona cinzenta entre a verdade e a mentira. De repente, torna-se mais ou menos aceitável mentir ou distorcer a verdade. Há verdades que escondemos dos outros por medo de ferir sentimentos. Há mentiras que contamos para nos protegermos a nós ou aos outros. Aos poucos, deixamos de ser tão honestos com os outros e, como consequência, connosco próprios.

Podemos perder-nos numa teia de mentiras. Podemos perder a nossa própria verdade e a nossa essência ao conformarmo-nos com as normas sociais e ao tentarmos encaixar nas caixas que nos são impostas. Começamos a perguntar “e se?”. Começamos a ficar inquietos…

Então, como ultrapassar isto? Como podemos reencontrar o caminho de volta à nossa verdade? E o que tem a filosofia do yoga a dizer sobre a verdade?

No segundo Yama, Satya, a palavra-raiz sat significa “essência verdadeira” ou “natureza verdadeira”. Refere-se àquilo que é imutável. Como acontece com muitas palavras em sânscrito, Satya é mais do que aparenta. Não se trata simplesmente de dizer a verdade ou de não mentir. Trata-se de viver em alinhamento com aquilo que é verdadeiro em nós. Vamos então aprofundar este princípio e ver como o podemos aplicar às nossas vidas.

  • Consideras-te uma pessoa honesta?
  • És honest@ contigo própri@?
  • Quando foi a última vez que mentiste – e porquê?
  • Mostras o teu verdadeiro eu às pessoas à tua volta?

Reserva algum tempo para ficares com estas perguntas. Talvez até queiras escrever sobre elas num diário e observar o que surge. É provável que despertem uma variedade de emoções. Ninguém gosta de ser visto como mentiroso ou de pensar em si próprio como uma pessoa desonesta. Ainda assim, a verdade é que todos somos desonestos em certa medida – connosco, com os outros ou com ambos.

Vivemos numa sociedade impregnada de mentiras e enganos, uma sociedade que esconde e encobre. Muitos de nós têm pavor de ser vulneráveis, de mostrar quem realmente são e de se exporem. O medo da rejeição ou do julgamento dos outros trava-nos. Paralisa-nos. Mantém-nos presos.

Todos temos partes de nós de que não nos orgulhamos – tentamos escondê-las dos outros e negá-las a nós próprios. São por vezes chamadas de sombras. Onde precisas de lançar luz sobre as tuas?

Satya e honestidade interna

Praticar Satya não começa apenas na forma como falamos com os outros, mas sobretudo na forma como somos honestos connosco próprios. Muitas vezes, aquilo que rejeitamos no exterior revela exatamente aquilo que ainda não conseguimos reconhecer em nós.

Experimenta o seguinte exercício de escrita no diário, usando escrita livre. Isto significa abdicar do controlo e escrever tudo o que te vem à mente, sem filtrar nem editar. Escreve como se ninguém fosse ler e deixa fluir para o papel.

  • Traz à mente alguém de quem não gostas particularmente
  • Considera as características dessa pessoa de que menos gostas
  • Agora pensa nessas mesmas características em ti:
    quando é que as manifestaste?
    em que circunstâncias?
    por que te comportaste dessa forma?
    qual foi o “presente” desse comportamento?

Muitas vezes, aquilo de que menos gostamos nos outros são as partes de nós de que menos gostamos – as nossas sombras, os aspetos que negamos e tentamos manter escondidos.

Todos cometemos erros. Todos ficamos zangados. Todos sentimos vergonha. Todos dizemos coisas que gostaríamos de não ter dito. Todos agimos de formas de que não nos orgulhamos. Em vez de reprimir estas emoções ou culpar os outros, podemos começar a assumir responsabilidade pela parte que nos cabe, aprender com ela e quebrar o ciclo.

Ao lançar luz sobre as nossas sombras, reconhecê-las e aceitá-las, tornamo-nos mais honestos connosco e, naturalmente, mais compassivos com os outros.

Como referi, Satya refere-se a verdades que não mudam. Com isto em mente, é fácil perceber como muitas vezes não vemos a verdade que está à nossa frente. A nossa realidade é toldada pelas emoções, sentimentos, julgamentos e experiências passadas. Como podem as nossas emoções ser a verdade, se estão sempre a mudar?

Isto não significa ignorá-las ou deixar de as escutar. Pelo contrário: aprendemos como funcionam e o que nos mostram. Aprendemos quando nos servem e quando nos limitam. Quando nos aproximam da verdade – e quando nos afastam dela. Aprendemos a honrá-las, mantendo-nos enraizados na nossa verdadeira essência.

Quando agimos apenas a partir das emoções, podemos reagir de forma impulsiva e irracional. Recorremos a instintos primários que são úteis em situações de perigo, mas pouco adequados ao dia a dia, pois nascem do medo e do condicionamento.

Através da prática de yoga, aprendemos a tornar-nos observadores e a responder em vez de reagir. Através do pranayama, das asanas e da meditação, criamos espaço entre nós e o acontecimento. Nesse espaço, vemos com mais clareza e respondemos a partir de um lugar calmo e enraizado.

Esse espaço é a nossa verdadeira natureza. É aí que procuramos viver e a partir de onde procuramos responder. Claro que isto exige prática – muita prática. Não é uma solução imediata. Mas, com o tempo, vamos passando cada vez mais tempo nesse espaço e regressando à nossa verdade.
Regressamos a casa. A nós próprios.

*Artigo adaptado do original publicado pelo parceiro ekotexyoga.co.uk.

Foto de freepik

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