Aditivos alimentares: os números E explicados

4 minutos de leitura

Assinalou-se este domingo, 7 de junho, o Dia Mundial da Segurança Alimentar, pretexto para refletirmos sobre os aditivos alimentares. Durante anos, bastava encontrar um E-número num rótulo alimentar para muitas pessoas concluírem que aquele produto era artificial, químico ou até perigoso. Mas, afinal, o que significam realmente estes códigos? Serão todos prejudiciais ou estaremos perante um dos maiores mal-entendidos da literacia alimentar?

Os chamados números E são códigos atribuídos a aditivos alimentares autorizados para utilização na União Europeia. Cada número corresponde a uma substância cuja segurança foi avaliada por entidades reguladoras alimentares.

Um E não é automaticamente um ingrediente artificial ou tóxico. É apenas uma forma padronizada de identificar substâncias utilizadas pela indústria alimentar. Na prática, estes aditivos podem ter diferentes funções, Por exemplo:

  • prolongar conservação/ evitar proliferação microbiana;
  • estabilizar texturas;
  • regular acidez;
  • evitar oxidação;
  • dar cor.

Sem determinados conservantes, muitos alimentos deteriorar-se-iam rapidamente.

Por que nasceu o medo dos E’s?

Parte do receio coletivo surgiu porque muitos destes códigos parecem distantes da linguagem comum. Entre nomes técnicos e números difíceis de memorizar, criou-se a ideia de que tudo aquilo que “soa químico” seria necessariamente prejudicial.

Ao mesmo tempo, o crescimento da alimentação ultraprocessada fez aumentar a desconfiança em relação à indústria alimentar. E, embora essa desconfiança tenha fundamentos legítimos em muitos casos, acabou também por simplificar excessivamente a conversa.

Hoje, muitas pessoas olham para um rótulo e avaliam um alimento apenas pelo número de E’s presentes – sem compreender o que representam.

Nem todos os E’s são artificiais

Nem todos os aditivos são sintéticos, nem todos são problemáticos. Aliás, muitos ingredientes associados à alimentação “natural” também aparecem sob a forma de código.

Existem E’s naturais. Alguns correspondem a vitaminas, pigmentos vegetais, fibras naturais ou substâncias presentes naturalmente em alimentos. E provavelmente muitos fazem parte da alimentação quotidiana sem que nos apercebamos.

Exemplos de E’s frequentemente associados a fontes naturais 

E-númeroSubstânciaOrigem/Fonte
E-100CurcuminaCurcuma
E-101RiboflavinaVitamina B2
E-160aBeta-carotenoCenoura e vegetais
E-160dLicopenoTomate
E-162BetaninaBeterraba
E-163AntocianinasFrutos vermelhos
E-170Carbonato de cálcioMineral/calcário
E-260Ácido acéticoVinagre
E-270Ácido lácticoFermentação
E-290Dióxido de carbonoGás natural/fermentação
E-300Ácido ascórbicoVitamina C
E-306TocoferóisVitamina E
E-322LecitinasOvo/soja
E-330Ácido cítricoCitrinos
E-406Ágar-ágarAlgas
E-410Goma de alfarrobaAlfarroba
E-412Goma guarPlanta guar
E-414Goma arábicaResina vegetal
E-415Goma xantanaFermentação
E-440PectinaFruta
E-901Cera de abelhaAbelhas
E-903Cera de carnaúbaPalmeira brasileira

Atenção: o mesmo número E pode corresponder a uma substância presente na natureza, mas frequentemente produzida através de processos industriais, por razões de eficiência e estabilidade.

O mesmo “E” pode ter três origens

1. Origem natural

Extraído diretamente de plantas, animais ou minerais.
Ex: E-160a (beta-caroteno de cenoura); E-300 (vitamina C de frutas)

2. Origem por fermentação / biotecnologia

Muito comum na indústria moderna.
Ex: E-270 (ácido láctico); E-415 (goma xantana)

3. Síntese industrial

Produzido em laboratório/indústria por eficiência, pureza ou custo.
Ex: E-330 (ácido cítrico) – muito frequentemente industrial hoje

Ultraprocessamento: o verdadeiro problema

Na prática, o problema de muitos produtos alimentares modernos não é necessariamente a presença de um E, mas sim:

  • excesso de processamento;
  • listas intermináveis de ingredientes;
  • excesso de açúcar;
  • aromatizantes intensivos;
  • baixa densidade nutricional;
  • alimentos desenhados para consumo compulsivo.

Um produto pode não ter praticamente nenhum E e continuar a ser altamente ultraprocessado. Da mesma forma, um alimento relativamente simples pode conter um ou dois aditivos sem que isso represente um problema significativo.

O problema começa quando a lógica da formulação deixa de servir apenas estabilidade e passa a criar produtos hiperpalatáveis, excessivamente processados e afastados da sua forma original.

Como ler um rótulo alimentar

Num tempo em que a alimentação gera cada vez mais medo e confusão, talvez a melhor abordagem seja substituir alarmismo por compreensão.

Em vez de procurar obsessivamente “E’s proibidos”, pode ser mais útil observar:

1. O grau de processamento

O alimento continua reconhecível? Ou parece uma mistura altamente manipulada de açúcares, aromas, texturas e estabilizantes?

2. O tamanho da lista de ingredientes

Listas muito extensas tendem a indicar formulações mais industriais.

3. A função do aditivo

Nem todos os aditivos servem o mesmo propósito. Há diferença entre, por exemplo, vitamina C usada como antioxidante, e múltiplos intensificadores de sabor num snack ultraprocessado.

4. O contexto global da alimentação

Nenhum alimento isolado define uma dieta. O impacto real depende sempre do padrão alimentar como um todo.

Entre o medo e a literacia

O problema maior tende a ser o grau de ultraprocessamento alimentar, não apenas a existência de um código “E”. Talvez a verdadeira questão não seja apenas quantos “E’s” um produto contém, mas quão distante ele ficou do alimento original.

Outro desafio igualmente relevante passa por compreender o contexto em que os alimentos são produzidos – e o que isso significa para a forma como nos alimentamos hoje.

Referências bibliográficas 

Foto de freepik

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