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Assinalou-se este domingo, 7 de junho, o Dia Mundial da Segurança Alimentar, pretexto para refletirmos sobre os aditivos alimentares. Durante anos, bastava encontrar um E-número num rótulo alimentar para muitas pessoas concluírem que aquele produto era artificial, químico ou até perigoso. Mas, afinal, o que significam realmente estes códigos? Serão todos prejudiciais ou estaremos perante um dos maiores mal-entendidos da literacia alimentar?
Os chamados números E são códigos atribuídos a aditivos alimentares autorizados para utilização na União Europeia. Cada número corresponde a uma substância cuja segurança foi avaliada por entidades reguladoras alimentares.
Um E não é automaticamente um ingrediente artificial ou tóxico. É apenas uma forma padronizada de identificar substâncias utilizadas pela indústria alimentar. Na prática, estes aditivos podem ter diferentes funções, Por exemplo:
- prolongar conservação/ evitar proliferação microbiana;
- estabilizar texturas;
- regular acidez;
- evitar oxidação;
- dar cor.
Sem determinados conservantes, muitos alimentos deteriorar-se-iam rapidamente.
Por que nasceu o medo dos E’s?
Parte do receio coletivo surgiu porque muitos destes códigos parecem distantes da linguagem comum. Entre nomes técnicos e números difíceis de memorizar, criou-se a ideia de que tudo aquilo que “soa químico” seria necessariamente prejudicial.
Ao mesmo tempo, o crescimento da alimentação ultraprocessada fez aumentar a desconfiança em relação à indústria alimentar. E, embora essa desconfiança tenha fundamentos legítimos em muitos casos, acabou também por simplificar excessivamente a conversa.
Hoje, muitas pessoas olham para um rótulo e avaliam um alimento apenas pelo número de E’s presentes – sem compreender o que representam.
Nem todos os E’s são artificiais
Nem todos os aditivos são sintéticos, nem todos são problemáticos. Aliás, muitos ingredientes associados à alimentação “natural” também aparecem sob a forma de código.
Existem E’s naturais. Alguns correspondem a vitaminas, pigmentos vegetais, fibras naturais ou substâncias presentes naturalmente em alimentos. E provavelmente muitos fazem parte da alimentação quotidiana sem que nos apercebamos.
Exemplos de E’s frequentemente associados a fontes naturais
| E-número | Substância | Origem/Fonte |
| E-100 | Curcumina | Curcuma |
| E-101 | Riboflavina | Vitamina B2 |
| E-160a | Beta-caroteno | Cenoura e vegetais |
| E-160d | Licopeno | Tomate |
| E-162 | Betanina | Beterraba |
| E-163 | Antocianinas | Frutos vermelhos |
| E-170 | Carbonato de cálcio | Mineral/calcário |
| E-260 | Ácido acético | Vinagre |
| E-270 | Ácido láctico | Fermentação |
| E-290 | Dióxido de carbono | Gás natural/fermentação |
| E-300 | Ácido ascórbico | Vitamina C |
| E-306 | Tocoferóis | Vitamina E |
| E-322 | Lecitinas | Ovo/soja |
| E-330 | Ácido cítrico | Citrinos |
| E-406 | Ágar-ágar | Algas |
| E-410 | Goma de alfarroba | Alfarroba |
| E-412 | Goma guar | Planta guar |
| E-414 | Goma arábica | Resina vegetal |
| E-415 | Goma xantana | Fermentação |
| E-440 | Pectina | Fruta |
| E-901 | Cera de abelha | Abelhas |
| E-903 | Cera de carnaúba | Palmeira brasileira |
Atenção: o mesmo número E pode corresponder a uma substância presente na natureza, mas frequentemente produzida através de processos industriais, por razões de eficiência e estabilidade.
O mesmo “E” pode ter três origens
1. Origem natural
Extraído diretamente de plantas, animais ou minerais.
Ex: E-160a (beta-caroteno de cenoura); E-300 (vitamina C de frutas)
2. Origem por fermentação / biotecnologia
Muito comum na indústria moderna.
Ex: E-270 (ácido láctico); E-415 (goma xantana)
3. Síntese industrial
Produzido em laboratório/indústria por eficiência, pureza ou custo.
Ex: E-330 (ácido cítrico) – muito frequentemente industrial hoje
Ultraprocessamento: o verdadeiro problema
Na prática, o problema de muitos produtos alimentares modernos não é necessariamente a presença de um E, mas sim:
- excesso de processamento;
- listas intermináveis de ingredientes;
- excesso de açúcar;
- aromatizantes intensivos;
- baixa densidade nutricional;
- alimentos desenhados para consumo compulsivo.
Um produto pode não ter praticamente nenhum E e continuar a ser altamente ultraprocessado. Da mesma forma, um alimento relativamente simples pode conter um ou dois aditivos sem que isso represente um problema significativo.
O problema começa quando a lógica da formulação deixa de servir apenas estabilidade e passa a criar produtos hiperpalatáveis, excessivamente processados e afastados da sua forma original.
Como ler um rótulo alimentar
Num tempo em que a alimentação gera cada vez mais medo e confusão, talvez a melhor abordagem seja substituir alarmismo por compreensão.
Em vez de procurar obsessivamente “E’s proibidos”, pode ser mais útil observar:
1. O grau de processamento
O alimento continua reconhecível? Ou parece uma mistura altamente manipulada de açúcares, aromas, texturas e estabilizantes?
2. O tamanho da lista de ingredientes
Listas muito extensas tendem a indicar formulações mais industriais.
3. A função do aditivo
Nem todos os aditivos servem o mesmo propósito. Há diferença entre, por exemplo, vitamina C usada como antioxidante, e múltiplos intensificadores de sabor num snack ultraprocessado.
4. O contexto global da alimentação
Nenhum alimento isolado define uma dieta. O impacto real depende sempre do padrão alimentar como um todo.
Entre o medo e a literacia
O problema maior tende a ser o grau de ultraprocessamento alimentar, não apenas a existência de um código “E”. Talvez a verdadeira questão não seja apenas quantos “E’s” um produto contém, mas quão distante ele ficou do alimento original.
Outro desafio igualmente relevante passa por compreender o contexto em que os alimentos são produzidos – e o que isso significa para a forma como nos alimentamos hoje.
Referências bibliográficas
- EFSA – Food additives overview
- European Commission – Food Additives
- EFSA – What is an E-number?
- EU Rules on Food Additives
- https://ec.europa.eu/food/food-feed-portal/screen/food-additives/search
- https://www.asae.gov.pt/seguranca-alimentar/aditivos-alimentares/antioxidantes.aspx
Foto de freepik
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