9 minutos de leitura • Por Bioneers*
Num mundo marcado por crises ambientais, polarização social e um ritmo de vida cada vez mais acelerado, encontrar equilíbrio interior tornou-se um desafio e, para muitos, uma necessidade. A atenção plena (mindfulness) tem ajudado milhões de pessoas a cultivar presença, resiliência e compaixão perante a complexidade do mundo contemporâneo.
Uma das vozes que tem contribuído para esta mudança é a norte-americana Deborah Eden Tull, fundadora da Mindful Living Revolution, uma organização dedicada a promover a prática da atenção plena compassiva e a consciência ecológica em prol de um futuro mais sustentável. Professora de meditação Zen e mindfulness, autora, palestrante, ativista e educadora em sustentabilidade, Deborah tem dedicado a sua vida a explorar a ligação entre transformação interior e regeneração coletiva.
Nesta entrevista, Deborah Eden Tull explica como a atenção plena nos pode ajudar a encontrar equilíbrio em tempos de incerteza e reflete sobre o papel da compaixão, da liderança consciente e da relação com o mundo natural.
Os seus ensinamentos centram-se na prática da atenção plena. Como podemos manter-nos envolvidos com o mundo que nos rodeia em tempos difíceis sem nos sentirmos sobrecarregados? Há momentos em que é saudável desligarmo-nos do que acontece à nossa volta?
O propósito da prática comprometida é levar presença, coragem e compaixão a todos os aspetos da nossa vida. Não existe uma ilha de paz fora da consciência coletiva. Pelo contrário, a meditação ajuda-nos a recordar que a interligação é o nosso estado natural. Buda foi um reformador social e ensinou a meditação como um caminho de transformação. A prática revela preconceitos inconscientes e sistémicos que têm condicionado a humanidade ao longo de gerações, e o compromisso com ela permite-nos libertá-los e recordar quem realmente somos. Permite-nos também cultivar uma relação estável e compassiva connosco próprios e com a vida.
“A meditação ajuda-nos a recordar que a interligação é o nosso estado natural. A prática revela preconceitos inconscientes e sistémicos que têm condicionado a humanidade ao longo de gerações, e o compromisso com ela permite-nos libertá-los e recordar quem realmente somos. Permite-nos também cultivar uma relação estável e compassiva connosco próprios e com a vida.”
Dito isto, o nosso sistema nervoso coletivo tem sido profundamente afetado pelos acontecimentos dos últimos anos. É fácil sentirmo-nos sobrecarregados com tudo o que acontece no mundo. Quando estamos presentes e atentos à nossa intuição, conseguimos acolher e integrar a informação com cuidado e compaixão. Podemos permitir que a nossa bússola interior – ou inteligência natural – nos guie enquanto atravessamos os desafios. Quando não estamos presentes, é fácil sermos arrastados para a reatividade, a divisão, a paralisia, a sobrecarga, a ansiedade, o drama ou o afastamento.
É uma disciplina permanecermos conscientes dos nossos sentimentos, das nossas emoções e do nosso sistema nervoso enquanto navegamos por um cenário global tão desafiante. Por vezes, precisamos de descansar e recolher-nos para voltarmos a conectar-nos com a realidade a partir de um lugar mais centrado. Noutras ocasiões, precisamos de estabelecer limites conscientes em relação às notícias para regenerar e fortalecer a nossa ligação à fonte.
Tenho testemunhado muitas pessoas aprofundarem a sua capacidade de permanecer centradas e de coração aberto perante a adversidade. Também tenho observado a divisão coletiva, a reatividade, o medo e a exclusão que têm marcado muitas sociedades. Este é um momento decisivo para nos recordarmos, a cada instante, de que podemos escolher a forma como respondemos à vida.
O meu conselho é que façamos pausas sempre que possível, voltemos a atenção para o nosso interior e cultivemos uma relação mais consciente e compassiva com a nossa paisagem interna. Podemos fortalecer a nossa resiliência perante o desconforto – ou seja, a capacidade de permanecermos presentes diante dos desafios – quando nos entregamos de coração aberto. Podemos aceder a uma coragem ilimitada que existe para lá do hábito do medo. Em vez de nos deixarmos absorver pelo drama das notícias, podemos permanecer presentes às correntes mais profundas da nossa experiência e permitir que emerja uma resposta consciente.
“Tem circulado uma enorme quantidade de informação tóxica nos últimos anos, pelo que é importante praticarmos uma verdadeira higiene energética. Isso significa assumirmos a responsabilidade de cultivar um coração e uma mente claros. As mudanças de que o mundo necessita exigirão o melhor de todos nós, e queremos enfrentá-las o mais centrados possível.”
Tem circulado uma enorme quantidade de informação tóxica nos últimos anos, pelo que é importante praticarmos uma verdadeira higiene energética. Isso significa assumirmos a responsabilidade de cultivar um coração e uma mente claros. As mudanças de que o mundo necessita exigirão o melhor de todos nós, e queremos enfrentá-las o mais centrados possível.
Considera que existem benefícios em atravessar períodos particularmente difíceis?
Há uma das minhas citações preferidas que responde, de certa forma, a essa pergunta:
“Para que uma semente atinja a sua expressão máxima, precisa de se desfazer completamente. A casca rompe-se, o seu interior revela-se e tudo se transforma. Para quem não compreende o crescimento, isto pareceria uma destruição completa.” — Cynthia Occelli
Talvez, em vez de falarmos em “benefícios”, possamos reconhecer a oportunidade espiritual e o convite a uma transformação sistémica que estes tempos nos oferecem. É fácil permanecer adormecido quando a vida é confortável. Estamos a viver uma enorme rutura, e isso está a abrir a mente e o coração de muitas pessoas a novas formas de estar e de compreender o mundo.
Há uma oportunidade para aprendermos a navegar pela incerteza com consciência, em vez de o fazermos a partir da separação e da limitação. Há uma oportunidade para fortalecer a nossa resiliência e voltarmo-nos para o luto não processado que foi transmitido ao longo de gerações – um luto que resulta do colonialismo, do racismo, do patriarcado, do capitalismo e da desconexão em relação ao mundo natural.
“Há uma oportunidade para aprendermos a navegar pela incerteza com consciência, em vez de o fazermos a partir da separação e da limitação.”
Há também uma oportunidade para a criatividade, para a colaboração, para libertarmos crenças limitadoras e nos abrirmos a possibilidades que talvez nunca tivéssemos imaginado para o nosso mundo. E há, acima de tudo, uma oportunidade para aprendermos a amar-nos uns aos outros apesar das nossas diferenças.
Uma das poucas certezas que tenho na vida é que continuaremos a viver tempos de incerteza. A minha oração é que saibamos atravessá-los com equilíbrio, guiados por uma compaixão profunda e por uma consciência desperta, em vez da divisão.
A atenção plena convida-nos a centrar a nossa atenção no presente, mas muitas das ameaças que a humanidade enfrenta exigem que olhemos para o futuro. Como podemos encontrar um equilíbrio entre estas duas necessidades?
A atenção plena ensina-nos a permanecer presentes enquanto realizamos qualquer tarefa. Por vezes, essa tarefa passa precisamente por olhar em frente, visualizar, sonhar ou planear o futuro. A partir da presença, podemos dirigir o nosso olhar para o futuro e reconhecer possibilidades, em vez de o observarmos através das limitações da mente condicionada e das expectativas que construímos.
Quando transcendemos a mente condicionada, somos capazes de imaginar, criar e acolher uma visão renovada, que vai além de tudo o que já vimos ou conhecemos. Quando não estamos ancorados na presença e na sabedoria do corpo, percebemos o mundo através das lentes limitadoras dessa mesma mente condicionada. Muitas vezes, nem sequer temos consciência das narrativas que moldam a nossa forma de pensar e agir.
A partir da presença corporal, mesmo quando refletimos sobre os grandes desafios do nosso tempo – como a injustiça social, as alterações climáticas ou a extinção de espécies – conseguimos aceder às qualidades da visão clara e da ação compassiva.
O teólogo Martin Buber cunhou o conceito de imaginação moral, que nos lembra que é nossa responsabilidade recorrer à imaginação criativa em prol do bem comum, contribuindo para um futuro mais justo e compassivo. Na minha experiência, a presença coloca-nos verdadeiramente em contacto com essa responsabilidade moral para com todos os seres. Liga-nos a uma experiência muito mais ampla de quem realmente somos, para além do ego e da bolha limitada do eu separado.
“O teólogo Martin Buber cunhou o conceito de imaginação moral, que nos lembra que é nossa responsabilidade recorrer à imaginação criativa em prol do bem comum, contribuindo para um futuro mais justo e compassivo.”
Também nos convida a estabelecer uma relação diferente com o tempo. Para além da linearidade temporal, podemos sentir a ligação aos nossos antepassados, às gerações futuras e à inteligência dos sistemas vivos da Terra.
Na sua perspetiva, por que é importante recuperar uma liderança inspirada pelo feminino profundo?
A sabedoria do feminino profundo tem sido rejeitada e desvalorizada durante muito tempo. As raízes do patriarcado remontam ao início da agricultura e da posse da terra, tendo sido reforçadas pela Era Cartesiana, pelos Tempos das Caças às Bruxas e pelo Iluminismo, que privilegiaram a racionalização e contribuíram para marginalizar ainda mais a sabedoria do feminino.
Os sistemas que estruturam a nossa sociedade continuam profundamente marcados por esse legado. Pessoas de todos os géneros – e as relações que estabelecemos entre nós – são afetadas por este viés, muitas vezes de forma inconsciente. Não podemos alcançar a plenitude, nem como indivíduos nem como espécie, se continuarmos a negligenciar metade daquilo que somos. Também não poderemos desenvolver plenamente a nossa sabedoria coletiva sem uma verdadeira parceria entre a liderança do feminino profundo e a do masculino sagrado.
Quando falo de feminino profundo, não me refiro a arquétipos culturais associados ao género. Refiro-me às energias essenciais da natureza que existem em todos nós. A recetividade, a escuta profunda, a permissão consciente, a capacidade de restaurar e outras formas de conhecimento que transcendem a mente racional são alguns exemplos dessa sabedoria. Podemos associá-la à escuridão fértil, ao silêncio e à energia lunar da natureza, em contraste com a sabedoria da luz, da atividade e da energia solar.
“Não poderemos desenvolver plenamente a nossa sabedoria coletiva sem uma verdadeira parceria entre a liderança do feminino profundo e a do masculino sagrado. Quando falo de feminino profundo, não me refiro a arquétipos culturais associados ao género. Refiro-me às energias essenciais da natureza que existem em todos nós. A recetividade, a escuta profunda, a permissão consciente, a capacidade de restaurar e outras formas de conhecimento que transcendem a mente racional são alguns exemplos dessa sabedoria.”
Atualmente, o paradigma dominante tende a valorizar mais a força do que a recetividade, a produtividade acima da sintonia, a opinião acima da investigação e da escuta atenta, a racionalização acima da inteligência do corpo, a velocidade acima da lentidão e a competição acima da colaboração. Estas são apenas algumas das formas como o desequilíbrio entre o yang e o yin continua a manifestar-se.
O equilíbrio entre o feminino e o masculino, entre o yin e o yang, é essencial para toda a vida. Uma semente não permanece para sempre adormecida na escuridão. Chega um momento em que se abre à luz do sol e inicia o processo de fotossíntese. Da mesma forma, temos hoje a oportunidade de reconhecer e ultrapassar preconceitos inconscientes, recuperando a sabedoria das formas profundas de liderança feminina para que o feminino e o masculino possam atuar em verdadeira parceria.
Como professora de Dharma e de liderança regenerativa, testemunho diariamente pessoas de todos os géneros a redescobrirem essa sabedoria. É profundamente inspirador assistir a este processo de recuperação e fazer parte dele.
*Tradução e adaptação da entrevista originalmente publicada pelo parceiro Bioneers
Foto de Doug Ellis editada com Inteligência Artificial
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