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Por Jyoti, professora de Yoga*
Nesta rubrica mensal, continuamos a explorar os oito membros do Yoga, começando pelos yamas – princípios éticos e sociais. Yama significa “freio” ou “domínio” em sânscrito e é composto por cinco disciplinas morais orientadas para o mundo exterior (e, como consequência, para nós própri@s). Os yamas convidam-nos a refletir sobre as nossas interações e o nosso papel na sociedade, a observar quem somos e como podemos viver de forma mais autêntica, consciente e alinhada. O quinto yama é aparigraha, que se traduz por não-possessividade ou desapego.
Aparigraha significa não-possessividade ou desapego. Este importante yama ensina-nos a tomar apenas o que precisamos, a manter apenas o que nos serve no momento e a deixar ir quando é o tempo certo. Baseia-se nos yamas anteriores e pede-nos que olhemos para onde estamos a agarrar-nos a coisas de que já não precisamos.
O físico: posses
Comecemos pelas posses físicas: olha para o teu guarda-roupa, armários e gavetas. Precisas de tudo o que tens? Usas tudo o que tens? Vivemos numa cultura que valoriza as posses materiais. Temos uma quantidade infinita de escolhas quando vamos às compras – na verdade, ficamos paralisados pela escolha. Comprar uma única coisa pode levar horas! O marketing tornou-se uma ciência, com empresas capazes de nos direcionar com base na nossa pegada digital, fazendo-nos acreditar que precisamos de algo, quando na maior parte das vezes não precisamos. Dizemos a nós mesmos que essa coisa será a solução para os nossos problemas, que, uma vez comprada, finalmente seremos felizes. Mas isso simplesmente não é verdade.
Certamente já percebeste: as posses físicas não trazem a felicidade duradoura que procuras. Claro, sentirás felicidade durante alguns minutos, horas ou até dias, mas logo ficarás a querer mais. O vazio continuará lá. O “curativo” que usaste para tentar escondê-lo vai desfazer-se e procurarás um curativo ainda maior, melhor e mais sofisticado para cobri-lo, apenas para perceber que também ele se desfaz.
Vê isto como um convite a fazer uma limpeza e a organizar. Muitos de nós sentimos-nos melhor, mais leves, depois de arrumarmos o ambiente externo e as nossas coisas. Percebemos que as nossas posses têm a capacidade de nos pesar, pois que nos apegamos a elas. Esse apego pode gerar medo – e agir a partir do medo pesa-nos ainda mais, continuando o ciclo. Consegues praticar aparigraha e manter apenas o que precisas?
Recomendo usar o método Marie Kondo; uma ótima forma de aprender o que realmente te traz alegria e o que podes remover. Ao segurar cada item, pergunta a ti mesm@:
- Preciso mesmo disto?
- Traz-me alegria?
- Acrescenta valor à minha vida?
Assim, vais distinguir o que valorizas do que já não te serve. Vais saber exatamente o que tens, o que precisas e, da próxima vez que fores às compras ou fores alvo de um anúncio, conseguirás distinguir com clareza se realmente precisas daquilo ou não.
Ao remover o que não precisas, começarás a sentir-te fisicamente mais leve. Começarás a apreciar as pequenas coisas, aquelas que nem são físicas.
O emocional: sentimentos
Emocionalmente, os humanos tendem a agarrar-se aos sentimentos “positivos” e fugir dos sentimentos “negativos”. Mas o que significam realmente positivo e negativo? Todas as emoções têm um propósito. Elas existem para nos informar, ensinar, proteger e guiar. São duas faces da mesma moeda; não há alegria sem tristeza, não há prazer sem dor.
A filosofia do Yoga ensina-nos a aceitar as emoções sem considerá-las erradas. A tratar cada emoção de forma igual. A permitir que cada emoção esteja em movimento e flua através de nós sem julgamento, narrativa ou apego. Se houver tristeza, que haja tristeza. Se houver raiva, que haja raiva. Se houver alegria, que haja alegria. Permitimos que cada emoção seja experienciada sem nos agarrarmos a ela ou sem tentar bloqueá-la ou anestesiá-la. Ao permitir que as emoções venham e vão, verdadeiramente vivemos no momento presente. Sabemos que isto também passará e, por isso, deixamos ser e deixamos ir.
O mental: pensamentos
A mente humana não gosta de mudança. Mesmo quando a situação atual é destrutiva, nos prejudica de alguma forma ou causa dor, ainda assim por vezes temos medo de dar o primeiro passo para mudar – é mais fácil ficar no que já conhecemos, não é? É por isso que permanecemos em certos empregos, relacionamentos, amizades e situações por tempo demais e alguns de nós nunca saem. E mesmo para aqueles que conseguem mudar, alguns ainda se agarram ao passado – um passado que já não nos serve. Revivemos a situação repetidamente, talvez mudando o resultado na nossa mente, talvez criticando-nos, talvez ambos. Punimo-nos mentalmente. Mas o passado já aconteceu, não podemos mudá-lo. Em vez disso, precisamos aceitá-lo, aprender com ele e seguir em frente. E devemos encontrar a nossa forma única de o fazer, seja através de terapia, coaching, escrita, movimento, canto, nada disto, algo disto ou tudo isto.
Não permitas que a situação te mantenha pequen@ ou apague a tua luz. Com a prática de yoga, aprendemos a permanecer no momento presente. Libertamo-nos do ruído mental, aprendendo que os nossos pensamentos não são factos, não somos os nossos pensamentos. Aprendemos que somos mais fortes do que os nossos pensamentos. Aprendemos a fazer amizade com a nossa mente e connosco mesmos, pois é o relacionamento mais longo que teremos.
Aparigraha é um tema vasto que pode ser aplicado na maioria das situações da nossa vida. Eis algumas perguntas-chave para te guiar:
- Como podes trazer aparigraha para a tua vida e experienciar a liberdade que oferece?
- Como podes deixar de te agarrar a posses materiais?
- Como podes deixar de te agarrar a emoções “positivas”?
- Como podes evitar fugir das emoções “negativas”?
- Como podes deixar ir o passado?
- Como podes trazer mais presença ao teu dia?
Que possas aplicar aparigraha no teu dia a dia e a viver com mais leveza, presença e liberdade.
Com amor e gratidão.
*Artigo adaptado do original publicado pelo parceiro Ekotex Yoga
Foto de Caroline McFarland na Unsplash
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