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Neurocirurgião norte-americano formado no paradigma científico convencional, Eben Alexander viu a sua visão da consciência mudar radicalmente após uma experiência de quase morte ocorrida durante um coma profundo causado por meningite bacteriana em 2008 – que originou o best-seller Proof of Heaven (Uma Prova do Céu, 2012). Nesta entrevista recente ao professor de Filosofia e Astrologia Pedro Gomes, o investigador fala sobre mente, espiritualidade, a importância do amor e a possibilidade de uma consciência que transcende o cérebro.
As experiências de quase morte parecem partilhar padrões comuns em diferentes culturas e épocas. O que pensa sobre essa universalidade? E o que poderá isso revelar sobre a consciência humana?
Esse é um dos aspetos mais fascinantes das experiências de quase morte. O facto de encontrarmos padrões semelhantes ao longo de milhares de anos e em diferentes culturas sugere que estamos a lidar com algo real e universal – não apenas com construções culturais isoladas.
Estas experiências apontam para um oceano mais amplo de consciência – algo que não se limita ao ser humano, nem sequer à forma física como a conhecemos.
Diz que mudou muito a conceção que tinha de mente e consciência. Em que medida?
Foi, sobretudo, a perceção de que estamos interligados através da mente. Eu tinha sido formado dentro de uma visão materialista, em que a mente está localizada no cérebro e no corpo. Hoje percebo que estamos a partilhar uma mente – e que o cérebro funciona mais como um filtro ou transdutor dessa consciência.
O meu caso clínico mostra claramente que o meu cérebro não poderia ter sustentado qualquer tipo de sonho ou alucinação, devido ao nível de dano neurológico documentado. A grande questão passa a ser: como é que a experiência ocorreu, e como explicar a recuperação?
Precisamos de um modelo muito mais amplo de consciência. A experiência aponta para a primazia da mente – ou seja, a consciência não é produzida pelo cérebro.
“Mais de 90% das pessoas que tiveram uma experiência de quase morte regressam com a certeza de uma força divina de amor e compaixão. Durante a revisão de vida que acontece nestas experiências, vemos o impacto das nossas ações na perspetiva de todos os envolvidos. E isso muda completamente a forma como compreendemos o comportamento humano.”

Autores como Amit Goswami ou Schrödinger defendem que a consciência está na base do universo, e que a mente individual seria apenas um recetáculo dessa mente maior. Concorda com essa visão?
Sim. O cérebro pode ser entendido como um dispositivo de dissociação, como um recetor, ligado a uma mente mais ampla. Nunca estamos verdadeiramente separados dessa mente.
Já existem cientistas que estudam essa conexão com uma “grande mente”, embora ainda não haja um consenso claro.
A questão é que não podemos esperar que todas as respostas venham apenas do estudo do cérebro. O cérebro não contém, por si só, as respostas sobre a consciência.
Podemos, por exemplo, estudar estados alterados de consciência induzidos por substâncias psicadélicas como DMT ou LSD, e observar o que acontece através de tecnologias como a ressonância magnética funcional (fMRI).
O que se vê nesses estados é curioso: áreas como a rede em modo padrão – associada ao ego, ao “eu aqui sentado a fazer nada” – parecem dissolver-se. As ferramentas de neuroimagem mostram alterações, mas não explicam a experiência em si. E isso sugere que a experiência não está a ser produzida pelo cérebro da forma convencional.
Há um reconhecimento crescente de que o cérebro pode não ser o gerador da experiência, mas sim algo que se “retira do caminho” para que a experiência aconteça.
Na Grécia antiga, por exemplo, em Pitágoras e nas tradições órficas ou até em Platão, já havia tentativas de descrever a consciência. Existe mesmo, n’A República de Platão, o mito da viagem ao mundo além da morte1. Isso ressoa com a sua experiência?
Sim. Platão é particularmente interessante. Em muitos aspetos, consigo comparar partes da minha própria experiência com o seu mundo das Ideias. Esse tipo de descrição de um mundo ideal é muito semelhante ao que experienciei.
E não podemos esquecer que Platão também integra uma dimensão ética muito forte – ligada ao bem, à justiça e à forma como nos relacionamos com os outros.
A importância do amor
Qual é, para si, a mensagem principal do seu trabalho e da sua experiência de quase morte, tal como apresentada no seu primeiro livro, Uma Prova do Céu – que se tornou um best-seller em Portugal?
A mensagem principal é muito simples: é sobre o amor. Estamos aqui para nos amarmos uns aos outros e cuidarmos uns dos outros. É isso que realmente importa.
Mais de 90% das pessoas que tiveram uma experiência de quase morte regressam com a certeza de uma força divina de amor e compaixão. Durante a revisão de vida que acontece nestas experiências, vemos o impacto das nossas ações na perspetiva de todos os envolvidos. E isso muda completamente a forma como compreendemos o comportamento humano.
Percebemos que não faz sentido agir de formas que não gostaríamos de sofrer nós próprios.
Tudo isto tem a ver com significado partilhado e propósito comum. Para mim, a palavra “espírito” significa simplesmente que estamos interligados numa mente partilhada, vivida em conjunto.
Há autores que falam de uma evolução da consciência ao longo da história da humanidade. Podemos imaginar um ponto em que toda a humanidade reconhece essa unidade?
Sim. Teilhard de Chardin [padre jesuíta e filósofo] escreveu sobre isso no século XX, no seu livro O Fenómeno Humano. Ele via a evolução como algo muito mais amplo do que a seleção biológica darwinista. Para ele, toda a consciência no cosmos está em processo de evolução e transformação. E eu concordo com essa visão.
A humanidade está a evoluir para uma consciência de unidade global?
Sim. Essa mente universal é aquilo que tudo sustenta. E estamos, progressivamente, a reconhecer essa realidade.
A mensagem é muito clara: trata-se de “conhece-te a ti mesmo”. Quando realmente nos conhecemos, percebemos que estamos ligados a algo maior – à mente universal.
Como pode o nosso cérebro físico limitado estabelecer ligação com essa mente universal? O que podemos fazer, enquanto seres humanos, para expandir a consciência?
A chave é deslocar o foco do cérebro e do corpo no “aqui e agora” e expandir a perceção do self. A meditação e a oração contemplativa são formas de explorar diretamente a consciência.
Se for necessário um apoio para acalmar a mente – aquilo a que muitos chamam o monkey mind2 – existem ferramentas como o Sacred Acoustics, que utilizam frequências sonoras para induzir estados cerebrais mais profundos de meditação. Estas técnicas funcionam através de frequências que ajudam a regular e sincronizar a atividade cerebral, facilitando estados mais profundos de meditação.
Ciência e espiritualidade
Desde Descartes, ciência e espiritualidade foram sendo separadas, embora algumas correntes da física moderna, como as associadas a Niels Bohr ou Schrödinger, defendam a ideia de que não há uma separação clara entre observador e realidade. A consciência parece influenciar o que é observado. Isso sugere que ciência e espiritualidade não podem ser separadas?
Sim. A ciência e a espiritualidade estão cada vez mais próximas e acabam por cooperar e se reforçar mutuamente. O futuro da ciência não será essa divisão. Será uma abordagem integrada, onde tudo é considerado em conjunto.
Durante demasiado tempo, o paradigma científico materialista simplesmente ignorou ou descartou experiências espirituais. Mas essa não é uma abordagem válida para compreender a realidade.
“A ciência e a espiritualidade estão cada vez mais próximas e acabam por cooperar e se reforçar mutuamente. O futuro da ciência será uma abordagem integrada,”
No seu livro mais recente, Living in a Mindful Universe (2017), junta testemunhos e experiências de consciência expandida, de forma semelhante a algumas tradições orientais. Isso contribui para uma mudança de paradigma?
Sim, absolutamente. Quando juntamos ciência e espiritualidade de forma rigorosa, e consideramos toda a experiência humana – sem excluir nada – começamos a perceber que tudo se encaixa num modelo mais amplo de consciência.
Um modelo evolutivo da consciência faz muito mais sentido quando integra toda a evidência disponível.
Vidas passadas
Alguns investigadores, como Michael Newton, documentaram milhares de casos relacionados com memórias de vidas passadas. Qual é a sua perspetiva sobre este tipo de investigação?
Estes estudos levantam questões importantes sobre a natureza da consciência e sugerem que ela pode não estar limitada a uma única vida física.
A ideia de múltiplas vidas não precisa de ser entendida como sofrimento ou como uma “roda de punição”, como em algumas leituras do budismo. Pode ser vista como um processo de refinamento da consciência – uma aproximação gradual à mente divina ou à consciência universal.
Depressão e sofrimento
Depois da sua experiência, qual é a sua visão sobre depressão e outras formas de sofrimento psicológico?
A depressão pode ser entendida, em muitos casos, como uma espécie de dissonância – um desalinhamento entre o que a pessoa vive e aquilo que seria o seu crescimento mais elevado enquanto consciência. Quando isso acontece, a pessoa sente que perdeu o caminho.
O meu conselho para quem passa por esse tipo de sofrimento é simples: voltar-se para o bem, para ajudar os outros, para aquilo que contribui para algo maior do que o próprio eu. É aí que começamos a recuperar sentido e direção.
Meditação e oração
Práticas como meditação e oração são formas de reorientação interior?
Sim. São formas de nos reconectarmos com esse nível mais profundo da consciência. Técnicas que levam a estados entre o sono e a vigília – como estados hipnagógicos – podem ajudar a acalmar a mente e reduzir essa atividade constante do pensamento.
É nesse silêncio que começamos a perceber que somos mais do que a mente.
“A maior parte das pessoas ainda está identificada com os seus pensamentos, emoções e narrativas internas. Mas existe uma consciência mais profunda – a consciência que observa tudo isso.”
Se a humanidade compreendesse melhor a natureza da consciência, muitos sofrimentos poderiam ser evitados ou profundamente transformados.
Aquela voz constante – o monkey mind – é o que precisamos de acalmar. A mente pode ser comparada a um colega de quarto muito ruidoso. Não somos os nossos pensamentos. Podemos estar conscientes dos nossos pensamentos sem nos identificarmos com eles. E isso muda completamente a forma como entendemos a nossa identidade.
A maior parte das pessoas ainda está identificada com os seus pensamentos, emoções e narrativas internas. Mas existe uma consciência mais profunda – a consciência que observa tudo isso.
Tudo está interligado – connosco, com o planeta e com o cosmos. Essa interconexão é uma realidade fundamental da consciência.
Pratica meditação com frequência? De que forma isso influencia a sua forma de viver?
A meditação diária tem sido fundamental. Ao longo dos anos, e após a minha experiência, esse trabalho interior ajudou-me a integrar uma perceção mais profunda de unidade com os outros.
Mas não é apenas a meditação. É também a forma como vivemos – como pensamos, como agimos e como nos relacionamos. É isso que transforma verdadeiramente uma pessoa.
Perguntas do público
Qual é o papel da doença no ser humano? Por que existe a doença?
A doença, em muitos casos, pode ser entendida como um desafio. Ela altera a nossa relação habitual com o corpo e com a realidade material, obrigando-nos a sair do modo automático de funcionamento. Esses desafios podem gerar transformação – mudam a forma como percebemos a vida e a consciência.
Existe alguma relação entre sonhos e experiências de quase morte?
Sim, existe uma relação. O espaço dos sonhos está profundamente ligado ao espaço espiritual que se manifesta também nas experiências de quase morte.
E o mesmo acontece com estados alterados de consciência, incluindo experiências induzidas por substâncias psicadélicas. Estes estados não são aleatórios – podem oferecer pistas sobre a natureza da consciência.
Bem e mal existem?
No reino para onde fui [na experiência de quase morte] tudo o que experienciei foi puro amor. E nós, como seres humanos, temos livre arbítrio; portanto, escolhemos o que criamos.
Curso online gratuito: Viagem de 33 dias ao coração da consciência
Existe um curso online gratuito associado ao mais recente livro de Eben Alexander, Living in a Mindful Universe. O programa 33 Day Journey into the Heart of Consciousness propõe um percurso de 33 dias por email, com exercícios e práticas dedicadas à exploração e expansão da consciência.
O curso já foi realizado por milhares de participantes e está disponível no site oficial do autor. Pode ser traduzido para várias línguas, incluindo português.
- O relato de Platão sobre a viagem ao mundo além da morte é o Mito de Er, narrado no Livro X da obra A República. A história ilustra o julgamento das almas, a reencarnação e a importância de fazer escolhas justas tanto na vida terrena como na espiritual ↩︎
- Monkey mind (ou mente macaca) é um conceito budista que descreve uma mente inquieta e distraída. Funciona como um macaco que pula de galho em galho: os seus pensamentos saltam rapidamente entre o passado, o futuro e cenários hipotéticos, sem foco, causando ansiedade. ↩︎
Assistir a entrevista no Youtube:
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