Afinal, quantos sentidos temos?

5 minutos de leitura

Assinala-se hoje, 24 de junho, o Dia Mundial dos Sentidos. 

Visão, audição, olfato, paladar e tato: a classificação dos cinco sentidos, herdada da filosofia aristotélica, moldou a forma como o Ocidente concebeu a perceção durante mais de dois mil anos. Mas atualmente não há consenso num número único de sentidos na neurociência contemporânea. Dependendo da definição usada, o ser humano pode ter entre cinco e mais de 20 sistemas sensoriais distintos. A questão deixou de ser apenas “quantos sentidos temos?”, para passar a ser “o que conta como um sentido – e onde começa realmente a experiência de sentir?”.

Como defendia o neurofisiologista Charles Sherrington, pioneiro no estudo do sistema nervoso, a nossa experiência do mundo é sempre mediada pelas sensações que dele recebemos. 

A classificação clássica dos cinco sentidos remonta a Aristóteles, no tratado De Anima, onde o filósofo os descreve como canais fundamentais de perceção do mundo exterior. Esta visão dominou a filosofia e a educação ocidental durante séculos. Contudo, esta estrutura tem uma limitação clara: foca-se apenas no mundo externo. O corpo humano, porém, não é um recetor passivo — é um sistema ativo de perceção constante, que monitoriza tanto o ambiente como o seu próprio estado interno.

Arte de Wiki Sinaloa na Unsplash

Entre os sistemas sensoriais mais reconhecidos pela neurociência moderna estão:

Propriocepção

A capacidade de perceber a posição do corpo no espaço, mesmo de olhos fechados. É o que permite tocar, por exemplo, no nariz sem olhar. 

Sistema vestibular

Localizado no ouvido interno, regula o equilíbrio e a orientação espacial.

Nocicepção

Deteção de estímulos potencialmente lesivos (dor).

Termocepção

Perceção de temperatura (frio e calor).

Estes sistemas não são variações do tato, mas modalidades sensoriais com circuitos próprios, essenciais à sobrevivência e à coordenação motora. Quando se soma tudo, o corpo humano deixa de ser um simples receptor de cinco canais e passa a ser uma rede altamente sofisticada de vigilância interna e externa. 

O corpo que se sente a si próprio

Uma das expansões mais significativas da neurociência moderna é a interocepção – a perceção do estado interno do organismo.

Este sistema permite sentir batimentos cardíacos, respiração, fome, sede, tensão visceral e estados de ativação fisiológica. Mais do que um detalhe biológico, a interocepção está ligada à regulação emocional e à construção da experiência subjetiva.

Sentir o coração acelerar antes de uma decisão. Perceber tensão no estômago perante uma situação. Notar a alteração da respiração em estados emocionais. Tudo isto é interocepção em ação, um sistema considerado fundamental para a consciência corporal.

A interocepção é “a representação da condição fisiológica do corpo no cérebro”
Bud Craig, neurocientista (1951-2023)

Sentidos que raramente são nomeados

Para além dos sistemas mais conhecidos, existem outras formas de perceção frequentemente ignoradas no discurso comum:

Cronocepção 

A experiência subjetiva da passagem do tempo – que pode acelerar, dilatar ou fragmentar-se consoante atenção, emoção ou estados meditativos. Ainda não existe consenso científico quanto à sua classificação como modalidade sensorial autónoma, mas é cada vez mais estudada em neurociência cognitiva.

Foto de Who’s Denilo ? na Unsplash

Sentido do esforço

A perceção interna de esforço físico e mental, associada a sistemas de motivação e regulação energética. Explica por que certas ações parecem “pesadas” ou “leves” independentemente da carga objetiva.

Neurocepção social

Conceito desenvolvido por Stephen Porges no âmbito da Teoria Polivagal: a capacidade predominantemente automática e inconsciente do sistema nervoso de detetar segurança, perigo ou ameaça nas interações humanas, através de microssinais como tom de voz, expressão facial e postura.

Quimio-sensibilidade interna

O corpo também “sente” a sua própria química: níveis de CO₂, pH, glucose e outras variáveis homeostáticas são monitorizadas continuamente para manter equilíbrio interno.

O cérebro não separa sentidos – integra experiências

A investigação contemporânea sugere que o cérebro não apenas recebe informação sensorial – ele antecipa e interpreta continuamente sinais internos e externos. O que sentimos não é uma simples leitura do mundo, mas uma construção dinâmica baseada em sinais sensoriais, expectativas e estados internos do corpo.

Foto de David Matos na Unsplash

Uma das descobertas mais consistentes da neurociência moderna é que os sentidos não funcionam de forma isolada. A perceção é sempre integrada. O que vemos altera o que ouvimos. O que sentimos no corpo modifica a interpretação do mundo exterior. Emoções influenciam literalmente a forma como o ambiente é percebido.

Neste sentido, o sistema sensorial humano não é um conjunto de cinco canais, mas uma rede dinâmica de perceção interna e externa em permanente interação.

Afinal, quantos sentidos? 

A resposta honesta da ciência é: depende da definição: se adicionarmos equilíbrio, propriocepção e interocepção, nocicepção, termocepção  e outros sistemas especializados, contam-se mais de 15. E algumas classificações neurofisiológicas mais amplas registam mais de 20.

Mas talvez a pergunta mais interessante não seja a contagem dos sentidos, mas até que ponto os utilizamos plenamente. Apesar da sofisticação biológica, o contexto contemporâneo tende a reduzir a qualidade da perceção. A hiperestimulação digital, o ruído constante e a aceleração da atenção criam condições em que a sensibilidade pode tornar-se superficial.

Neste cenário, práticas como respiração consciente, meditação, contacto com a natureza, movimento somático ou silêncio não são apenas ferramentas de bem-estar. São formas de reeducação sensorial.

Afinal, recuperar a capacidade de sentir – o corpo, os outros, o ambiente que nos rodeia – é uma das formas mais profundas de presença. 


Referências bibliográficas

Aristóteles. De Anima.

Craig, A. D. (2002). “How do you feel? Interoception: The sense of the physiological condition of the body.” Nature Reviews Neuroscience, 3(8), 655–666.

Craig, A. D. (2015). How Do You Feel? An Interoceptive Moment with Your Neurobiological Self. Princeton University Press.

Damásio, A. (1999). The Feeling of What Happens: Body and Emotion in the Making of Consciousness. Harcourt Brace.

Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory. W. W. Norton & Company.

Seth, A. K. (2021). Being You: A New Science of Consciousness. Faber & Faber.

Bear, M. F., Connors, B. W., & Paradiso, M. A. (2020). Neuroscience: Exploring the Brain (4.ª ed.). Wolters Kluwer.


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