Filipa Moniz, professora de tantra: “O nosso ser sexual e erótico faz parte da natureza humana. É belo, sagrado e divino”

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A propósito do Portugal Tantra Festival, que inicia hoje, publicamos uma entrevista com a professora de tantra e facilitadora de intimidade Filipa Moniz, em parceria com o podcast Tea & Couch with Alisa, apresentado por Alisa Brunetti Mukai. Ao longo da conversa, Filipa descreve o tantra como um caminho de consciência e presença que honra a sexualidade como sagrada, explorando também a forma como a energia pode ser canalizada para a criatividade, comunicação, intuição e bem-estar. Aborda ainda o despertar da kundalini, mitos associados ao tantra, a distinção entre escuridão e sombra e práticas simples baseadas em respiração, som e movimento, bem como diferentes formas do tantra contemporâneo.

A professora de tanta Filipa Moniz com Alisa Mukai, apresentadora do podcast Tea & Couch with Alisa

Filipa, gostavas de começar por te apresentar e o teu percurso?

Sim, claro. Há uns anos, tinha uma vida completamente diferente. Era cientista biomédica e liderava uma equipa no mundo corporativo, numa grande empresa farmacêutica na Suíça. Depois chegou a Covid e a minha vida mudou de um mês para o outro. Mudei-me para Bali, entrei numa formação de professores de yoga e descobri o tantra – algo sobre o qual eu não fazia a mínima ideia. Não sabia o que era energia, nem conhecia nenhuma destas formas de viver. E comecei a passar por uma profunda transformação pessoal.

Há cerca de três anos, decidi tornar-me professora de tantra e começar a levar este trabalho ao mundo.

“O tantra é muito mais do que sexo. Tem a ver com consciência. A qualidade de consciência – ou presença, ou maturidade para ver além do imediato – é central no tantra. Também é um caminho espiritual único porque vê a sexualidade como algo sagrado e belo.”

Existem duas partes em mim: uma que ama a ciência, a estrutura, a compreensão racional das coisas. Foi aí que a minha curiosidade começou. Mas hoje essa curiosidade voltou-se para compreender o amor, as relações, a sexualidade, a consciência corporal, e perceber como podemos sentir-nos verdadeiramente felizes e realizados.

Já não o faço tanto a partir de uma compreensão intelectual ou académica, mas sim vivendo a vida, sentindo-a no meu corpo e observando o mundo à minha volta.

Isso é lindo. Podes contar-nos mais sobre o teu primeiro encontro com o tantra? Como foi?

O meu primeiro encontro foi um pouco invulgar. Aconteceu no quarto, com um parceiro íntimo. Tive uma espécie de despertar Eat, Pray, Love [referência ao livro de Elizabeth Gilbert sobre uma viagem de autodescoberta] em Bali. Já praticava muitas coisas que favorecem a descoberta do tantra: fazia uma hora de exercícios respiratórios todas as manhãs, talvez três horas de yoga por dia, muito trabalho emocional e catártico para processar padrões e emoções.

Estávamos confinados durante a pandemia num resort lindíssimo de cinco estrelas, portanto não havia muito de que me queixar. E ele começou a sugerir coisas muito simples: respirar devagar enquanto fazíamos amor, relaxar o corpo em vez de o contrair. Também me ensinou algumas técnicas de respiração específicas, como respirar como se fosse através de uma palhinha ou expirar fazendo o som “sss”. Além disso, fazia-me massagens profundamente relaxantes nas coxas, parte interior das pernas, nádegas, barriga e zona lombar.

O meu corpo ficava tão relaxado antes de fazermos amor que o ato começou a transformar-se numa experiência muito calma, feita de ondas de excitação que podiam durar horas. E no final eu não me sentia cansada e exausta, como acontecia antes, depois do sexo. Sentia-me cheia de energia, pronta para ir a uma festa.

Filipa Moniz

E essa energia permanecia no meu corpo durante dias. Sentia-me como uma rainha a irradiar algo especial em tudo o que fazia. Depois, tudo começou a tornar-se orgásmico: as cores, os cheiros, andar de scooter em Bali, sentir os solavancos da estrada, dançar com alguém… tudo despertava excitação em mim.

Foi então que ele me disse: “Isto é tantra.”

E eu pensei: “Se isto se chama tantra, quero mais.”

“Os três pilares do tantra são: respiração, som e movimento. Se trouxermos estas três coisas para a vida – inclusive para a intimidade – muita coisa muda.”

Tantra: consciência e presença

Para quem não sabe o que é tantra, como o descreverias?

O tantra é muito mais do que sexo. Tem a ver com consciência. A qualidade de consciência – ou presença, ou maturidade para ver além do imediato – é central no tantra. Também é um caminho espiritual único porque vê a sexualidade como algo sagrado e belo.

A maioria das tradições espirituais e religiões tende a ignorar a sexualidade, a reprimi-la ou a sentir vergonha dela. O tantra faz exatamente o oposto. Diz que o nosso ser sexual e erótico faz parte da natureza humana. É belo, sagrado e divino. Não há nada de errado nisso.

A excitação é uma força poderosa. E uma das grandes aprendizagens do tantra é perceber que podemos canalizar essa energia para diferentes áreas da vida. A excitação pode transformar-se em criatividade, trabalho, amor, serviço aos outros, coragem para expressar desejos, intuição mais aguçada e até experiências psíquicas mais intensas. Aprendemos a canalizar a energia da excitação de forma consciente.

Também tiveste esse despertar intuitivo?

Absolutamente. Isso começou antes mesmo de eu compreender o que era tantra. Durante aqueles primeiros meses, comecei a ter visões em sessões muito longas de intimidade. Vi imagens e situações muito claras que não compreendia. Talvez vidas passadas, talvez outra coisa – não importa muito.

Também comecei a sentir onde determinadas dores e emoções estavam presas no meu corpo e, intuitivamente, sabia como precisava mover-me para libertar esses bloqueios.

Como foi viver isso sendo cientista?

Curiosamente, não tive muitas dúvidas intelectuais. Porque não comecei por ouvir teorias – eu vivi tudo no corpo. Depois de algumas semanas em Bali, tive um orgasmo intensíssimo apenas em meditação, sem qualquer toque físico. Fiquei em choque.

“A excitação é uma força poderosa. E uma das grandes aprendizagens do tantra é perceber que podemos canalizar essa energia para diferentes áreas da vida. A excitação pode transformar-se em criatividade, trabalho, amor, serviço aos outros, coragem para expressar desejos, intuição mais aguçada e até experiências psíquicas mais intensas.”

Fui falar com a minha professora e disse-lhe que estava assustada. Ela respondeu com toda a naturalidade: “Não te preocupes, tiveste um despertar da kundalini. A tua vida vai mudar completamente.” E mudou mesmo.

Mitos sobre tantra

Creio que muitas pessoas têm ideias erradas sobre tantra. Algumas pensam até que é magia sexual obscura. Que mitos gostavas de desconstruir?

Antes de mais, a palavra “tantra” é usada de formas muito diferentes, especialmente no Ocidente. Por exemplo, muitas coisas chamadas “massagem tântrica” na verdade são massagens eróticas. E não há nada de errado nisso. Mas tantra tem mais a ver com toque terapêutico e consciente.

Uma massagem tântrica pode ser excitante, mas o objetivo não é apenas prazer sexual. O foco nem sequer costuma estar nos genitais. Pode ser uma experiência profundamente relaxante e curativa, onde se recebe toque com cuidado e presença, inclusive em zonas íntimas, mas sem agenda sexual.

Isso é algo raro: normalmente os terapeutas não tocam nessas zonas, e os parceiros fazem-no quase sempre esperando que isso leve ao sexo.

Receber toque sem expectativa pode ser profundamente transformador.

Escuridão versus sombra

O que significa a palavra “escuridão” para ti?

No tantra existe muita confusão entre “escuridão” e “sombra”. Para mim, a luz está ligada à espiritualidade, à intuição, aos rituais, à consciência. A escuridão é a ligação ao corpo, à matéria, ao dinheiro, à força instintiva, à nossa parte animal e terrena.

A sombra surge quando essa energia é reprimida, negada ou distorcida. Por exemplo, muitas pessoas extremamente ligadas à espiritualidade acabam envolvidas em escândalos sexuais porque rejeitam a sua natureza humana. Como não integram essa parte, ela emerge de forma distorcida. O tantra procura trazer tudo isso à consciência, para que nada precise permanecer escondido na sombra.

Que sombras descobriste em ti própria?

Uma delas é que adoro pessoas, sou muito extrovertida, adoro amigos e família. Mas às vezes, para receber amor, esqueço-me de mim e torno-me uma pessoa que dá em excesso. Isso é sombra, porque deixo de estar centrada em mim.

Outra sombra é o medo da minha própria força – da minha capacidade de proteger o que é meu, o meu dinheiro, os meus limites, a minha família. Às vezes minimizo o meu poder por medo de parecer demasiado forte.

Práticas simples para o quotidiano

Existe alguma prática simples para iniciantes?

Sim. Os três pilares do tantra são: respiração, som e movimento. Se trouxermos estas três coisas para a vida – inclusive para a intimidade – muita coisa muda.

Respirar profundamente e devagar. Aprender a sustentar a respiração. Expressar sons. Mover o corpo. Vivemos de forma muito sedentária e desconectada do corpo.

Uma prática simples é dançar em frente ao espelho, talvez até nus, observando o corpo e aprendendo a amá-lo.

Para as mulheres, outra prática poderosa é olhar para a própria vulva com um espelho, porque muitas mulheres têm pouca conexão visual com os próprios genitais.

Tens alguma prática diária?

Não sou muito disciplinada com rotinas fixas. Preciso de diversidade. Mas percebi que, de manhã, quando acordo e ainda estou deitada, existe um estado muito especial. Tenho acesso a uma sabedoria que não consigo alcançar durante o dia, quando tudo fica mental e cheio de tarefas.

Muitas vezes as minhas ideias mais profundas surgem nesse momento. Às vezes escrevo conteúdos logo ao acordar. Outras vezes entro em práticas de auto-prazer ou no que no tantra chamamos de sex magic: visualizar os sonhos e objetivos enquanto o corpo sente prazer.

Psicologicamente, isso cria associações neurológicas entre prazer e aquilo que queremos manifestar.

Como é trabalhar conscientemente com energia?

Para mim, tudo começa com foco e atenção. Existe uma zona na base da coluna onde sentimos a energia kundalini. Quando medito, foco-me aí, visualizo energia a mover-se pela coluna e pelo corpo.

Quanto mais atenção colocamos numa parte do corpo, mais fluxo sanguíneo, calor e atividade celular existem nessa região. Isso é comprovado cientificamente.

Por isso, acredito que muitas coisas a que chamamos “energia” são fenómenos que a ciência ainda não consegue explicar totalmente. 

Tipos de tantra

Qual é a diferença entre tantra clássico e neotantra?

O tantra clássico vem de linhagens antigas da Índia e também de tradições taoístas chinesas. Era sobretudo um caminho espiritual. A sexualidade representava apenas uma pequena parte dos ensinamentos.

O neotantra moderno está muito mais focado no corpo, nas emoções, na sexualidade consciente e na transformação pessoal através da energia sexual.

E o que são tantra branco e vermelho?

O tantra branco está mais ligado à meditação, presença e consciência sem componente sexual.

O tantra vermelho envolve plenamente a sexualidade, os desejos e a exploração erótica consciente.

E eu diria que trabalho mais com algo intermédio: um “tantra rosa”.

Nos meus retiros e workshops não facilito espaços focados em atos sexuais explícitos. Interessa-me mais o espaço intermédio: sensualidade, excitação, dança, lingerie, expressão corporal, conexão com o prazer e com o corpo.

Conselhos e desejos

Que conselho darias ao teu eu mais jovem?

Sabendo hoje que a espiritualidade se tornaria tão importante para mim, gostava de ter levado a vida um pouco menos a sério. Passei muito tempo focada em aprovação social, carreira, notas, imagem e ambição. Gostava de ter criado mais estrutura financeira para mim própria, divertido-me mais e sido um pouco mais egoísta no bom sentido – escolhendo mais aquilo que realmente queria viver.

O que gostarias de ver mais no mundo?

Relações saudáveis. Sempre fui apaixonada pela saúde – foi por isso que me tornei cientista biomédica. Hoje, como professora de tantra, sou apaixonada por relações saudáveis. As relações têm um impacto enorme no nosso bem-estar físico e emocional. E aquilo que mais desejo é ver mais comunicação saudável, mais curiosidade sobre o outro, mais consciência das próprias necessidades.

Ver a entrevista completa (em inglês) no podcast Tea & Couch with Alisa: 

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