Saucha: um olhar sobre a pureza 

5 minutos de leitura

Por Jyoti, professora de Yoga*

Obrigada por nos acompanhares nesta jornada pelos oito membros do yoga. Explorámos os cinco yamas – os princípios sociais: não-violência (ahimsa), verdade (satya), não-apropriação (asteya), uso consciente da energia (brahmacharya) e desapego (aparigraha). Isto leva-nos aos cinco niyamas: as disciplinas morais dirigidas a nós próprios e, como consequência, ao mundo exterior. Eles convidam-nos a refletir sobre a forma como tratamos a nós mesmos. Iniciamos os cinco princípios com saucha.

Saucha traduz-se como pureza ou limpeza, tanto do nosso ambiente interno como externo. O nosso ambiente reflete o nosso estado mental e pode influenciar a forma como nos sentimos. Um quarto desorganizado ou caótico pode ser um sinal de que precisamos de explorar o nosso mundo interno, bem como arrumar e/ou desapegar-nos do excesso. Para mim, arrumar é algo prazeroso – gosto de organizar e de dar a cada objeto um lugar na minha casa. Mas sei que não é assim para toda a gente. Independentemente de achares isso agradável ou não, manter o teu ambiente externo limpo e organizado é essencial para manter a mente equilibrada. 

Recomendo muito a leitura de A Mágica da Arrumação, de Marie Kondo, e a prática do seu método – mudou a minha vida. Podes também voltar ao artigo sobre aparigraha e refletir sobre aquilo a que te estás a agarrar e que já podes libertar.

Podemos também considerar o espaço onde praticamos yoga:

  • Está limpo?
  • O teu tapete está limpo?
  • A área está livre de desorganização?
  • O local onde praticas transmite calma, relaxamento e paz?

Se possível, dedica um espaço específico à prática de yoga – isso ajuda a tua mente a associar esse lugar a um espaço sagrado e a um tempo teu. Não precisa de ser um espaço grande ou de o tapete estar sempre estendido. Pode ser simplesmente uma parte específica do teu quarto ou sala onde estendes o tapete e o arrumas no final da prática. Assegura-te apenas de que o espaço escolhido te faz sentir bem e em paz.

Os nossos pensamentos tornam-se palavras, as palavras tornam-se ações, as ações tornam-se hábitos e os hábitos moldam o nosso caráter. 

Na filosofia do yoga, os nossos órgãos dos sentidos desempenham um papel fundamental na prática. Por isso, ao pensarmos em como purificar o nosso ambiente externo, devemos também considerar aquilo que absorvemos pelos sentidos. Desde comida, bebida, televisão, livros, redes sociais, pessoas na nossa vida… a lista continua. Dedica algum tempo a refletir sobre a informação que recebes através dos sentidos e sobre a sua “limpeza” ou pureza:

  • Estas coisas acrescentam valor à tua vida?
  • Como te sentes depois de as fazer ou de estar com elas?
  • Como poderias trazer mais estímulos de saucha para o teu dia a dia?

A maioria de nós usa redes sociais, por isso, dedica algum tempo a “limpar” o teu espaço online – se algo te faz sentir mal, deixa de seguir.

O saucha do nosso ambiente interno envolve purificar a mente e o corpo. Como talvez te lembres de artigos anteriores, os nossos pensamentos tornam-se palavras, as palavras tornam-se ações, as ações tornam-se hábitos e os hábitos moldam o nosso caráter. 

Purificar os pensamentos

Na prática de meditação aprendemos a ser testemunhas, a observar os pensamentos a surgir e a desaparecer. Através da escrita/journaling podemos explorá-los mais profundamente. Em ambas as práticas, aprendemos a notar a qualidade dos nossos pensamentos e a desapegar-nos deles – percebendo que os pensamentos não são factos. Com o tempo, podemos libertar pensamentos que não são gentis, verdadeiros ou úteis, e substituí-los por outros mais saudáveis.

As palavras que usamos são fundamentais, porque a mente não distingue entre o que é verdadeiro e o que não é. Quando falamos negativamente sobre nós próprios, a mente não interpreta isso como “brincadeira”. Quando dizemos “sou tão estúpida”, a mente acredita nisso e, com o tempo, as histórias que contamos sobre nós tornam-se a nossa realidade, mesmo que não sejam verdade. Podemos começar a reescrever essas histórias observando o que pensamos e dizemos antes de falar, procurando expressar-nos com gentileza – sobre nós e sobre os outros.

Quando era professora do ensino básico, incentivava os meus alunos a fazer três perguntas antes de falar: 

  • é verdade? 
  • é gentil? 
  • é necessário? 

Isto é algo que também nós, adultos, podemos aplicar.

Purificar as ações

Quando as nossas intenções são puras e agimos com ahimsa e satya, podemos sentir-nos mais livres para ser quem somos e viver aquilo que realmente desejamos, independentemente do que os outros pensem. Isto leva-nos a atrair pessoas semelhantes na nossa vida, porque energia atrai energia – mas a mudança começa sempre dentro de nós. Onde colocamos a atenção, a energia flui, por isso pergunta-te:

  • Onde está a tua atenção?
  • E onde queres que a tua energia flua?

Purificar o corpo

Por fim, podemos purificar o corpo através do banho, especialmente antes da prática de yoga e meditação, para remover toxinas, aquecer os músculos e clarificar a mente. Existem também várias técnicas de limpeza no yoga, chamadas shatkarma, que incluem jala neti (limpeza nasal) e kapalabhati (uma técnica de respiração), entre outras. 

A exploração destes métodos pode ser aprofundada no contexto de aulas e práticas orientadas de yoga.

*Artigo adaptado do original publicado pelo parceiro Ekotex Yoga

Foto de Pexels

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