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Por Jyoti, professora de Yoga*
Nesta jornada pelos oito membros do yoga, explorámos os cinco yamas – os princípios sociais: não-violência, verdade, não-apropriação, uso consciente da energia e desapego. Estudamos agora os cinco niyamas, as disciplinas morais dirigidas a nós próprios e, como consequência, ao mundo exterior. Iniciámos com saucha (pureza) e, este mês, refletimos sobre santosha, que significa contentamento ou aceitação.
Santosha é composta por duas palavras em sânscrito: sam, que significa completamente ou totalmente, e tosha, que significa contentamento ou aceitação. Assim, santosha traduz-se como contentamento pleno. Esta ideia pode parecer abstrata para muitos de nós – algo inalcançável para pessoas comuns e reservado aos grandes yogis ou àqueles que alcançaram a iluminação. Podemos pensar que contentamento pleno significa aceitar todas as situações sem tentar mudá-las, desistindo por completo, ou que não podemos ter desejos e sonhos. No entanto, santosha ensina-nos precisamente o contrário. Vamos explorar…
A ilusão do “vou ser feliz quando…”
Estamos todos na correria da vida, de tarefa em tarefa em piloto automático, acreditando que a próxima coisa nos trará a felicidade que procuramos; aquele contentamento pleno que sentimos, lá no fundo, ser possível, mas que ainda não conseguimos alcançar. Estamos constantemente a dizer a nós próprios ou aos outros: “Vou ser feliz quando…”. E, quando chegamos a esse “quando”, não paramos para apreciar e desfrutar os frutos do nosso trabalho. Não paramos para pensar: “Uau, isto é o que eu sonhava, isto é o que eu queria – a versão de mim com 15 anos ficaria tão orgulhosa.” Em vez disso, avançamos rapidamente para o próximo objetivo e dizemos novamente: “Vou ser feliz quando…”, e o ciclo continua.
Passamos a vida a correr atrás da próxima meta, de um objetivo em constante movimento, daquele próximo pico de dopamina. Eventualmente, percebemos que essa próxima conquista não trouxe a satisfação que esperávamos, e sentimos alguma confusão e vazio.
Será que alguma vez vou sentir-me verdadeiramente satisfeit@? Como posso alcançar esse estado de contentamento interior e paz? Como posso preencher este vazio? Começamos a fazer as grandes perguntas – e é aqui que santosha pode guiar-nos.
Santosha não é desistir
Vamos esclarecer: não há absolutamente nada de errado em ter objetivos, sonhos e desejos. A filosofia do yoga não desencoraja isso. Pelo contrário, convida-nos a compreender que a felicidade é um trabalho interno. Nenhuma conquista externa nos dará o contentamento que tantos procuram. O contentamento pleno nasce de dentro; precisamos parar de procurar fora e começar a olhar para dentro. Tudo o que realmente precisamos já está em nós, e podemos começar a escavar as camadas, regressando ao nosso verdadeiro eu – a esse estado de contentamento.
Podemos usar os yamas, os outros niyamas e os restantes seis ramos do yoga para, gradualmente, estabilizar nesse estado de contentamento. É uma jornada profundamente pessoal de desapego, desaprendizagem, reescrita e reaprendizagem – não é uma solução imediata, nem um caminho fácil.
Com prática consistente, a gratidão expande a nossa perceção e reconfigura gradualmente o cérebro para focar o positivo. Assim, mesmo no ritmo acelerado da vida, permanecemos contentes por dentro, sabendo que nada do que alcançamos externamente define o nosso valor ou altera esse estado.
Não há contentamento sem gratidão
A gratidão é simplesmente o ato de sentir e expressar apreço. Ao mudar a nossa consciência, começamos a encontrar gratidão nos lugares mais improváveis, o que fortalece a nossa capacidade de notar o “bom” mais do que o “mau”.
A primeira vez de que me lembro de sentir essa mudança foi aos 13 anos: a minha mãe estava grávida, e de repente comecei a ver grávidas em todo o lado. Antes não reparava – e, de um momento para o outro, pareciam estar por toda a parte! Talvez já tenhas vivido algo semelhante? Não foi que toda a gente estivesse grávida – foi a minha atenção que mudou.
Com prática consistente, a gratidão expande a nossa perceção e reconfigura gradualmente o cérebro para focar o positivo. Assim, mesmo no ritmo acelerado da vida, permanecemos contentes por dentro, sabendo que nada do que alcançamos externamente define o nosso valor ou altera esse estado. Não estamos apegados (ver aparigraha), e perder algo não abala o nosso equilíbrio interno. Não dependemos disso para sermos felizes.
Operar a partir deste estado de gratidão também nos ajuda a reduzir a tendência para reclamar e incentiva-nos a agir com intenção. Lembra-te: as nossas palavras são energia, e a energia flui para onde vai a atenção. Quando te queixas, recebes mais daquilo de que te queixas. Agora, atenção – isto não significa que nunca possas expressar algo negativo. Santosha não promove positividade tóxica. Não estou a dizer para não desabafares – todos precisamos disso. Mas sim para viver segundo o princípio: “muda o que não aceitas e aceita o que não podes mudar”.
Expressa o que sentes, identifica o problema, encontra uma solução e age. E nas situações que não consegues mudar, aceita o que é, encontra gratidão no que tens e segue em frente a partir de um lugar de calma e paz interior.
Pelo que estás grat@? Como podes trazer mais gratidão para a tua vida?
Uma última coisa – é fácil sentir gratidão quando tudo está bem. Mas, quando enfrentamos situações difíceis ou desconfortáveis, pode ser mais desafiante. Na próxima vez que isso acontecer, permite-te estar com esse desconforto e pergunta-te:
- Como me sinto? Porquê?
- Onde sinto isto no corpo?
- Qual é a lição? O espelho? O presente escondido nesta situação?
- Como posso atravessar isto com aceitação e compaixão por mim?
Obrigada por explorares connosco os oito ramos do yoga. Se tiveres pensamentos, comentários ou perguntas, estamos aqui.
Com amor e gratidão.
*Artigo adaptado do original publicado pelo parceiro Ekotex Yoga
Foto de Alexey Zhilkin
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