Abhijeet Shirkande: “O Ayurveda não é apenas um sistema médico, mas uma ciência de saúde preventiva e personalizada”

10 minutos de leitura

Em passagem recente por Portugal, o médico de Ayurveda Abhijeet Shirkande explicou como esta ciência védica propõe uma abordagem centrada na prevenção, na rotina diária e no equilíbrio entre corpo e mente. Nesta conversa, fala-nos da ligação entre stress e doença, do papel das forças biodinâmicas conhecidas como doshas e de como pequenas mudanças no quotidiano podem ter um impacto significativo na saúde. 

O estilo de vida moderno, com rotinas irregulares, pressão mental, stress, alimentação desequilibrada, entre outros fatores, tem prejudicado a nossa saúde, acelerando o envelhecimento e enfraquecendo o sistema imunitário. De que modo o Ayurveda pode ajudar as pessoas a viver de forma mais saudável e equilibrada? 

Para evitar múltiplos problemas de saúde, é essencial manter o corpo, a mente e o espírito em equilíbrio. É neste contexto que o Ayurveda, um sistema com mais de 5 mil anos de tradição, se torna relevante. Não é apenas um sistema médico, mas uma ciência de saúde preventiva e personalizada, uma abordagem natural que responde às limitações da medicina moderna.

O Ayurveda permite compreender a constituição de cada pessoa – física e mental – conhecida como Prakriti. Esta constituição pode ser dominada por Vata, Pitta ou Kapha – os três doshas ou forças biodinâmicas presentes no nosso organismo –, o que orienta uma abordagem terapêutica personalizada, semelhante ao conceito moderno de medicina de precisão ou medicina genética.

O foco principal do Ayurveda não é apenas a cura, mas sobretudo a prevenção. Por isso, centra-se no quotidiano: rotinas diárias, rotinas sazonais, cuidados desde a infância e atenção às diferentes fases e ciclos da vida, incluindo o ciclo menstrual. 

Existem regimes específicos que ajudam tanto na prevenção de doenças como no tratamento de condições mais complexas.

“O foco principal do Ayurveda não é apenas a cura, mas sobretudo a prevenção. Por isso, centra-se no quotidiano: rotinas diárias, rotinas sazonais, cuidados desde a infância e atenção às diferentes fases e ciclos da vida, incluindo o ciclo menstrual.”

O Ayurveda é considerado uma ciência védica, conhecida como a ciência da vida. A ciência contemporânea tem confirmado os seus postulados? 

O Ayurveda descreve muitos dos mesmos fenómenos que a ciência convencional investiga atualmente, embora o faça de forma mais simples e direta. E a ciência contemporânea está hoje a confirmar várias observações que o Ayurveda já descrevia há séculos, nomeadamente ao nível das funções cerebrais e da ligação entre corpo e mente, que se influenciam mutuamente.

Um dos exemplos mais claros é a relação entre imunidade e inflamação. O estilo de vida influencia diretamente a função imunitária e os processos de inflamação crónica, que estão na base de muitas doenças modernas. Por isso, é possível atuar de forma direta sobre a imunidade e sobre os marcadores inflamatórios através da modificação do estilo de vida.

Outro fator essencial é o impacto do stress crónico no organismo. O stress interfere na digestão, no equilíbrio hormonal e no sono. Existe uma ligação bem documentada entre estes fatores, tanto no Ayurveda como na investigação moderna. A abordagem ayurvédica, incluindo Yoga e terapias como o Panchakarma, permite reduzir o stress e harmonizar o sistema de forma natural.

Atualmente, há um interesse crescente da comunidade científica internacional em desenvolver investigação integrada nesta área. A tendência atual é precisamente a convergência entre a ciência convencional e sistemas tradicionais como o Ayurveda, com múltiplos projetos de investigação já em curso. Por isso, podemos dizer que o Ayurveda é uma abordagem científica e orientada para a investigação.

“A tendência atual é a convergência entre a ciência convencional e sistemas tradicionais como o Ayurveda, com múltiplos projetos de investigação já em curso.”

O Ayurveda baseia-se no conceito dos três doshas. Pode explicar-nos de forma simples essa teoria?

De forma metafórica, tal como no ambiente natural – onde o vento, o sol e a lua influenciam o clima e o equilíbrio da Terra –, também no corpo humano existem forças que regulam o funcionamento interno. 

Os três doshas representam diferentes funções do organismo:

  • Vata (composto por ar e éter), associado ao movimento e ao fluxo de energia;
  • Pitta (composto por água e fogo), associado à digestão e ao metabolismo;
  • Kapha (composto por água e terra), associado à estrutura, estabilidade e força.

Cada pessoa possui estas três forças biodinâmicas em proporções diferentes. É essa combinação individual que determina a constituição de cada um. Com base nisso, é possível personalizar a alimentação, o exercício, os hábitos diários e até aquilo que deve ser evitado.

Em termos simples, saúde significa equilíbrio. Quando os doshas estão em equilíbrio, o organismo encontra-se saudável e há bem-estar global.

A rotina diária (dinacharya), alinhada com o ritmo circadiano e com os ciclos biológicos do corpo, é um conceito também central no Ayurveda. 

Sim, o estilo de vida diário desempenha um papel fundamental na saúde e na doença. A forma como vivemos no dia a dia é determinante tanto na prevenção como na evolução de patologias.

O Ayurveda descreve em detalhe o que deve ser feito ao longo do dia: a que horas acordar, o que fazer ao despertar, que práticas realizar e como organizar o dia. Pequenas práticas, como a aplicação de óleo na pele de forma regular, especialmente de manhã, podem ajudar a melhorar o equilíbrio geral.

Existem hoje duas formas de vida muito diferentes: pessoas que vivem em sintonia com o ciclo natural do dia e pessoas que vivem em desfasamento constante, por exemplo, trabalhando à noite. Estudos de longo prazo, incluindo alguns reconhecidos internacionalmente, mostram que este desfasamento pode ter impacto negativo na saúde. 

Quando o ritmo circadiano está em equilíbrio, a saúde também tende a estar. Quando alinhamos o corpo com estes ciclos naturais, o funcionamento biológico torna-se mais eficiente. Um exemplo simples é o acordar cedo, antes do nascer do sol, o que pode favorecer níveis mais elevados de energia e maior clareza mental.

Durante a madrugada e início da manhã, certos processos fisiológicos estão mais ativos, incluindo a produção de células sanguíneas como glóbulos brancos e glóbulos vermelhos. Acordar neste período pode, em muitas pessoas, gerar uma sensação de maior energia e vitalidade ao longo do dia.

De acordo com o Ayurveda, os três pilares da saúde são o sono (nidra), a alimentação (ahara) e o uso consciente da energia vital (brahmacarya). Pode aprofundar um pouco estes pilares? 

Sim. Os três pilares fundamentais são a alimentação, o sono e a disciplina do comportamento – ou seja, o que fazer, o que evitar e em que quantidade. Quando compreendemos estes princípios, conseguimos prevenir muitas doenças e contribuir para uma melhor qualidade de vida, tanto individual como coletiva.

“Os três pilares fundamentais da saúde são a alimentação, o sono e a disciplina do comportamento

De acordo com o Ayurveda, o tipo de alimentação influencia o estado do corpo e da mente. Se uma pessoa consome alimentos sátvicos, tende a desenvolver um estado mais equilibrado e claro. Se consome alimentos rajásicos, torna-se mais ativa e estimulada. E se consome alimentos tamásicos, isso pode gerar maior inércia ou desequilíbrio.

Por outro lado, dependendo da constituição, da profissão, nível de atividade física e capacidade digestiva, as necessidades alimentares também mudam. 

É fundamental compreender isto para manter o agni – o fogo digestivo – em equilíbrio, já que um agni saudável está diretamente ligado ao bem-estar geral, à imunidade e à vitalidade.

O sono é igualmente um fator crucial para a saúde. Um sono de qualidade é fundamental para a função imunitária, o equilíbrio hormonal e a regeneração celular. Um estilo de vida acelerado compromete o sono profundo, que é necessário para a recuperação correta do sistema nervoso e dos neurónios.

Em relação ao uso consciente da energia, de modo simples tem a ver com o equilíbrio entre atividade e descanso. Esse equilíbrio é essencial para a gestão do stress e para o funcionamento do corpo.

A ligação entre corpo e mente é um dos aspetos centrais do Ayurveda. As doenças podem ser físicas, mas podem também ter origem mental e emocional. 

Sim, no tratamento de qualquer condição, é necessário abordar simultaneamente o corpo e a mente. Um exemplo comum é a hiperacidez. Na nossa prática clínica, observamos muitos pacientes com hiperacidez severa e verificamos que cerca de 70% a 80% dos casos estão relacionados com o stress.

Ou seja, nestes casos, a causa não é apenas alimentar ou digestiva, mas sobretudo emocional e psicológica. Isto mostra como o stress influencia diretamente o organismo, provocando alterações hormonais e enzimáticas significativas. Através do Ayurveda, é possível compreender melhor estes mecanismos e também sincronizar o funcionamento interno do corpo com o ambiente e com os ritmos naturais – aquilo a que poderíamos chamar o “relógio interno”. Quando há esta sincronização, o organismo tende a recuperar e a funcionar de forma mais equilibrada.

O Ayurveda descreve um vasto número de plantas medicinais – cerca de 6.000 a 7.000 espécies – e a forma como estas interagem com o corpo humano. Pode nomear algumas plantas com diferentes benefícios?

Por exemplo, a ashwagandha é útil para o stress e a vitalidade; tulsi é associada à imunidade e ao equilíbrio geral; curcuma é usada em processos inflamatórios; e triphala é uma combinação de três plantas tradicionalmente usada para digestão e rejuvenescimento (rasayana).

Compreender as plantas medicinais disponíveis à nossa volta – muitas vezes até na cozinha – permite lidar com várias situações de saúde de forma simples, natural e acessível. 

“A ashwagandha é útil para o stress e a vitalidade; tulsi é associada à imunidade e ao equilíbrio geral; curcuma é usada em processos inflamatórios; e triphala é uma combinação de três plantas tradicionalmente usada para digestão e rejuvenescimento.”

O Ayurveda descreve não só os efeitos das plantas medicinais, mas também o seu comportamento no organismo: o sabor, os efeitos pós-digestão e as propriedades terapêuticas. Na tradição indiana, é comum recorrer a infusões e decocções preparadas com plantas da “farmácia doméstica”, especialmente para cuidados básicos de saúde.

Em paralelo, existe o conceito de anupana, que se refere ao veículo com que uma planta ou substância é administrada. 

Sim, não é apenas a planta que importa, mas também a forma como é administrada. Cada substância pode ter efeitos diferentes dependendo da constituição da pessoa, da condição a tratar e da forma de preparação. O alho é um bom exemplo: pode ser benéfico em determinados desequilíbrios, sobretudo associados a Vata, mas menos indicado noutras situações. Além disso, as suas propriedades variam consoante seja consumido cru, cozinhado ou combinado com outros ingredientes. Esta individualização do tratamento é um dos princípios centrais do Ayurveda

Qual o papel do Yoga no Ayurveda? São abordagens diferentes mas, quando estudamos a tradição védica, percebemos que fazem parte do mesmo sistema de conhecimento. 

Sim, são como duas faces da mesma realidade. Existem muitos benefícios associados à prática de Yoga, com o qual é possível melhorar a saúde física, a saúde mental e também reduzir desequilíbrios psicossomáticos e hormonais. Por isso, para uma vida saudável e equilibrada – e também para o bem-estar individual e coletivo – é importante integrar estas duas abordagens em simultâneo.

Para concluir, pode partilhar connosco uma dica simples para o dia a dia? 

Beber um pouco de água quente, principalmente depois do banho e após a evacuação, ajuda a estimular o processo digestivo ao longo do dia. Não é necessário beber grandes quantidades; cerca de 40 a 50 ml de água quente já podem ter um impacto positivo no organismo.

Apoiar o nosso jornalismo independente

Ler também:


Discover more from Prana Magazine

Subscribe to get the latest posts sent to your email.