Swadhyaya, um olhar sobre autoestudo

6 minutos de leitura

Por Jyoti, professora de Yoga*

Nesta jornada pelos oito membros do yoga, explorámos os cinco yamas – os princípios sociais: não-violência, verdade, não-apropriação, uso consciente da energia e desapego. Estamos agora nos cinco niyamas, as disciplinas morais dirigidas a nós próprios e, como consequência, ao mundo exterior. Já refletimos sobre pureza (saucha), aceitação (santosha) e disciplina (tapas). Hoje debruçamo-nos sobre swadhyaya, que significa autocontemplação.

Swadhyaya é o nosso penúltimo niyama. É uma palavra bonita de pronunciar, em que “swa” significa “eu” ou “self” e “dhyaya” significa contemplar, meditar ou refletir. Juntas, estas palavras podem ser traduzidas como autoestudo, autocontemplação ou introspeção. Trata-se, mais uma vez, de ir removendo camadas para encontrar o nosso verdadeiro Eu ou o divino dentro de nós.

Como é que nos estudamos a nós próprios? Como mergulhamos mais profundamente dentro de nós? Como contemplamos e refletimos?

As respostas a estas perguntas são infinitas. Como sempre, depende de cada pessoa e daquilo que mais precisa em determinado momento. Abaixo estão quatro formas de aprofundar o teu swadhyaya.

Escrever sobre as experiências 

Uma forma de nos estudarmos é através das nossas experiências – elas são grandes mestres. Quando nos sentamos e dedicamos tempo a refletir e a desembrulhar as nossas experiências através da escrita, começamos a compreender-nos melhor. Aprendemos quem somos através das ações que tomámos. Aprendemos o que valorizamos e o que não valorizamos. Aproximamo-nos da compreensão do nosso verdadeiro eu, em vez da versão de nós próprios que criámos na mente ou da versão que temos apresentado ao mundo.

Foto de Hannah Olinger na Unsplash

Talvez, ao refletirmos, não nos orgulhemos de tudo o que descobrimos – e isso também está bem. Não nos castigamos; em vez disso, oferecemos amor e aceitação a nós próprios. Encontramos conforto em saber que, agora que sabemos melhor, podemos fazer melhor. Podemos começar a alinhar-nos para que pensamentos, palavras e ações sejam uma só coisa. Podemos colocar em prática aquilo que aprendemos – agir e transformar-nos. Desta forma, percebemos que o nosso sentido de identidade e felicidade vem verdadeiramente de dentro.

Experimenta explorar as seguintes perguntas para começar:

  • O que aprecias mais na tua personalidade? Que aspetos tens mais dificuldade em aceitar?
  • Explora uma ou duas opiniões que tinhas no passado, mas que entretanto questionaste ou mudaste. O que te levou a mudar essa opinião?
  • Que valores consideras mais importantes na vida? De que forma as tuas ações estão alinhadas com esses valores?
  • Que mudanças podes fazer para viver de acordo com os teus valores pessoais?

Meditar 

Estar em meditação é outra forma de mergulhar mais fundo dentro de nós. Sei que a meditação é algo com que muitos de nós se debatem, e haverá um artigo mais aprofundado dedicado a esse tema dentro de alguns meses. Entretanto, é importante compreender que meditar é estar consciente do que a mente está a fazer. Não se trata de ter a mente vazia.

Por isso, se te sentares para meditar e passares o tempo inteiro a pensar, com a mente a saltar de um pensamento para outro, isso é completamente normal. Permanece com isso. Tenta observar esses pensamentos sem te perderes totalmente neles. Lembra-te de que isto exige tempo e dedicação. Haverá dias em que parecerá mais fácil e dias em que parecerá difícil. Surfa a onda.

Com o tempo, haverá momentos de clareza e momentos de espaço interior. É nesses momentos que vemos o nosso verdadeiro Eu ou o divino dentro de nós. 

Estudar os textos clássicos 

Os Yamas e Niyamas que temos vindo a explorar vêm dos Yoga Sutras de Patanjali – um dos grandes textos do yoga. Existem muitos textos yogues diferentes que podes estudar para aprofundar o conhecimento de ti própri@.

Embora isso possa parecer intimidante, é uma parte essencial do swadhyaya e do desenvolvimento de uma prática de yoga completa. Muitos destes textos podem ser difíceis de compreender sozinh@, por isso podemos procurar um professor (guru) competente que nos ajude a compreendê-los e contemplá-los mais profundamente. Isso pode acontecer através dos seus vídeos, da leitura dos seus comentários ou do estudo presencial com eles.

Talvez estejas a perguntar-te como encontrar esse guru. Há um ditado que diz: “Quando o aluno está pronto, o professor aparece.” É importante encontrar alguém com quem sintas ligação e em quem confies.

Também é importante transformar o conhecimento em transformação. Utilizar aquilo que aprendes e contemplas para gerar mudanças positivas em ti e, consequentemente, no mundo.

Reconectar com a intuição 

Somos seres intuitivos por natureza. Quando um bebé nasce, segue a sua intuição, os seus desejos e necessidades. Ainda não foi condicionado pelo meio envolvente, por isso confia naturalmente em si próprio e nos seus desejos.

À medida que crescemos, tornamo-nos conscientes das vontades e necessidades dos outros e somos condicionados pelas sociedades em que vivemos. Muitos de nós aprendem a procurar respostas fora de si mesmos. Muitos começam a ignorar o seu saber interior. Muitos deixam de confiar no instinto.

As nossas intuições abafadas ou esquecidas são vitais na jornada do yoga. Como sabes, o yoga é uma viagem interior, por isso confiar em nós próprios é essencial. Ao reconectarmo-nos com a nossa intuição, passamos a conhecer-nos num nível mais profundo.

Experimenta explorar as seguintes perguntas para começar:

  • Como sentes a tua intuição? Descreve-a em detalhe. (Talvez seja uma voz suave, uma sensação, etc.)
  • Quando confias mais em ti própri@? Quando tens mais dificuldade em acreditar nos teus instintos?
  • Quando te sentes mais alinhad@?
  • Pergunta-te, perante qualquer situação: o que é que esta situação / sentimento me está a ensinar?
  • Como se sente o teu corpo neste momento?

Também podes, por exemplo, escrever uma carta à tua intuição.

Ao embarcares na tua jornada de swadhyaya, lembra-te de que o ego está sempre a tentar manter-nos seguros – é para isso que foi programado. Não gosta de mudanças, por isso continuará a repetir os mesmos padrões e a contar mentiras para te travar, como “não és capaz” ou “não és merecedor@”, tentando manter-te “segur@”.

Mas quanto mais confiamos na nossa intuição e no nosso saber interior, quanto mais saímos da zona de conforto e damos passos rumo ao desconhecido, mais percebemos que somos capazes e merecedores.

Com amor e gratidão,

*Artigo adaptado do original publicado pelo parceiro Ekotex Yoga

Foto de Melanie Deziel na Unsplash

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